Entre as doenças que mais mataram no Brasil recentemente, e que a transmissão acontece pelo ar, estão:

Tuberculose – 4,5 mil pessoas/ano
Gripe: 839 pessoas/ano
*Com dados de 2018

Desde 25 de fevereiro de 2020, quando foi confirmado o primeiro caso de coronavírus no Brasil, foram registradas 48 mortes (até 16h30 de 25 de março) – ou seja, 1,5 por dia, bem menos do que a Tuberculose e pouco inferior à média/dia da gripe. Com uma diferença, no caso do novo coronavírus estamos falando de agente ainda “desconhecido”, sem cura comprovada eficaz e em curvas ascendentes de transmissão, contágio e morte.

Mas, sigamos…

A ABIN – agência de inteligência do governo federal –, em relatório vazado pelo The Intercept, projeta cerca de 5.500 mortes até 6 de abril no país (o que superaria os números de vítimas fatais da Tuberculose em um ano no prazo menor do que dois meses). No cenário mais “positivo”, esse número reduziria a 2.062 óbitos (as projeções são feitas com bases nas curvas registradas em outros países – China, Itália e Irã, com curvas mais acentuadas, e França e Alemanha, com curvas mais suaves).

O impacto da curva está ligado diretamente à velocidade de transmissão do vírus, este atrelado à intensidade de circulação e aglomeração de pessoas.

Olhando um pouco para fora do nosso território, na Itália já são mais de 6 mil mortes – nos últimos 5 dias morreram na Itália, a cada 24 horas, o número de mortos no Brasil por gripe no ano.

Os dois primeiros casos de COVID-19 na Itália foram registrados em 31 de janeiro e, num primeiro momento, o país seguiu sua rotina – inclusive saindo atrás nos números da casos em países vizinhos na Europa. Em meados de fevereiro, ou seja, 15 dias depois, o país seguia apenas com 3 casos. E vida que segue…

O drama instalou-se quando, em 1º de março, o país tinha 1.128 casos e 29 mortes, e só resolveu parar todas as operações mesmo em 8 de março. Atualmente, a Itália vive com o registro de mais de 6 mil mortes, em escala crescente de 600 novas mortes por dia, e mais de 60 mil casos confirmados.

O que precisamos evitar?

Já ouvi que não dá para comparar o Brasil à Itália. Contraponho essa afirmação destacando que a densidade demográfica do Estado de São Paulo (hab/km2), por exemplo, é quase a mesma da Itália inteira. As grandes capitais brasileiras apresentam uma densidade demográfica extremamente preocupante para o cenário do COVID-19 e sua alta capacidade de transmissão.

Para além das projeções da capacidade de infecção e o quanto letal é esse novo vírus, deve ser ponderada também a estrutura de saúde de um país – vide o cenário na Itália novamente. A adequação/melhorias/aumentos da logística de saúde leva em consideração as projeções de doenças existentes, somando-se a isso outros índices de sinistros, como acidentes, por exemplo.

Um exemplo rápido, com números fantasiosos, é claro: suponha que o Brasil possui atualmente 100 leitos hospitalares, entre UTIs e comuns – e esses leitos, que trabalham muitas vezes na capacidade limite ou acima dela, estejam 90% ocupados. Se surge uma nova doença, com elevado número de infectados num curto espaço de tempo, o colapso é óbvio. É matemática. Tratando-se do sistema de saúde brasileiro, já bastante sobrecarregado em condições normais de temperatura e pressão, é algo a se preocupar.

Em paralelo às medidas de combate ao COVID, são necessárias, por óbvio, ações econômicas. Nesse aspecto, existem “n” alternativas de formas como o Estado pode e deve agir sem que seja necessário onerar o trabalhador na ponta, o pequeno e médio empresário/comerciante e evitar desemprego em massa. As possibilidades vão da taxação de fortunas (com capacidade de gerar caixa na casa dos 200 bilhões de reais) à suspensão do pagamento da dívida pública (com capacidade de caixa no âmbito dos trilhões de reais).

O que não podemos é fingir que o risco à saúde não existe, diante de uma doença pouco conhecida e com alternativa de cura ainda não eficaz. O caos social pode ser evitado com decisões econômicas acertadas e as restrições à circulação suspendidas de forma estratégica, projetada e planejada; o risco real de uma proliferação descontrolada, sem a adoção de medidas necessárias, não.

>> Assina este artigo: Giovanni Romão (jornalista e articulista do blog Papo Sem Censura)