Era 29 de setembro de 2018, pouco antes do primeiro turno das eleições presidenciais, quando as ruas de cidades em 26 estados brasileiros e no Distrito Federal ficaram ocupadas por manifestantes que gritavam #EleNão. Um ato nacional, notoriamente protagonizado por mulheres e amplamente sustentado pela juventude, recebeu o apoio de movimentos sociais, entidades de classe e de partidos de esquerda – àquela altura, até mesmo pessoas ligadas a partidos da direita liberal, como PSDB, foram às ruas; o objetivo para este último grupo, mais pragmático, era beliscar um lugar no segundo turno.

Quase oito meses depois, a conjuntura política brasileira é outra. O alvo daqueles atos de setembro do ano passado está sentado na cadeira de presidente da República, ainda que não se comporte como um – falamos sobre isso aqui. Não que seu governo seja alguma surpresa, falamos sobre isso em artigo escrito e publicado em dezembro de 2018, antes mesmo da posse – aqui para leitura.

E também quase oito meses depois, o “mesmo grupo” que protagonizou o #EleNão foi quem balançou o país nos mesmos 26 estados e no distrito federal – com destaque para imagens como a Avenida Paulista lotada em São Paulo e a região da Candelária, no Rio, tomada por uma multidão sem fim. Numa chuvosa Viçosa, em Minas, a imagem aérea escondia as milhares de pessoas abaixo de seus guarda-chuvas. Na região do Vale do Paraíba, São José dos Campos, Taubaté e Jacareí registraram grandes movimentos – em Pinda também houve ato próximo do fim da tarde.

Mulheres e a juventude – em especial estudantes -, além de representantes da educação, como professores, puxaram os gritos nas ruas. Foram classificados como “idiotas úteis” por Jair Bolsonaro, que estava em Dallas, nos EUA, onde não foi recebido por nenhum representante do governo Americano e nem pelo prefeito de Dallas – diante do fracasso, impôs uma visita de última hora ao ex-presidente George W. Bush.  “Ao contrário de algumas reportagens, o presidente Bush não esteve envolvido nos arranjos da viagem e não estendeu o convite para (Bolsonaro) vir a Dallas”, disse Freddy Ford, assessor do ex-presidente Bush.

Para fechar sua passagem por Dallas, enquanto as ruas do Brasil pegavam fogo, Bolsonaro tentou parafrasear-se, e conseguiu se superar: “Brasil e Estados Unidos acima de tudo…” Engasga, esquece Deus, e fecha: “Brasil acima de todos.” A frase original, que foi lema de sua candidatura e é de seu governo, diz: “Brasil acima de tudo; Deus acima de todos.”. Ou seja, numa mesma lambança, Bolsonaro vendeu-se aos EUA e esqueceu o Deus que tanto prega.

Enquanto o presidente e o governo seguiam batendo cabeça, o mercado entregando os pontos – com a bolsa despencando e o dólar extrapolando os R$ 4,00 -, a Reforma da Previdência empacada e o guru Olavo de Carvalho tirando o time de campo – “Não me meto mais com a política brasileira” –, as ruas do dia 15 de maio de 2019 repetiam as ruas do dia 29 de setembro de 2018.

Os efeitos dos dois atos são semelhantes. Enquanto o primeiro empurrou o eleitorado conservador e os anti-petistas a antecipar o voto em Bolsonaro ainda no 1º turno das eleições; o segundo levou o presidente, já empossado, ao movimento extremo de divulgar texto de autor anônimo no qual deixa no ar uma possível renúncia – o objetivo é inflamar a sua base extremista. Afinal, Bolsonaro sabe que os seus eleitores de ocasião já o entregaram ao passado. Na outra ponta, as ruas berram na defesa das políticas públicas, das liberdades e das minorias – e prometem seguir movimentadas.

>>> Assina este editorial: Giovanni Romão (jornalista e articulista do blog Papo Sem Censura

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