>>> Por Giovanni Romão

Depois de uma pausa estratégica – férias + reorganizar a vida –, o blog Papo Sem Censura está voltando com as atualizações, e nada mais oportuno do que retomar as publicações já falando de eleições – ou o que nos leva até lá. As municipais, ainda um pouco distantes no tempo, já estão por aí, na cabeça e no imaginário das pessoas, na narrativa, e nos passos dos partidos políticos que buscam se organizar para as disputas de 2020.

Daqui até lá, tudo depende de quem conseguirá puxar a pauta desse próximo ciclo, mas dado o início catastrófico do governo de Jair Bolsonaro – nenhuma surpresa para os minimamente antenados em política –, as narrativas predominantes nos círculos de conversas e ações políticas tendem a fazer contraponto as barbaridades do governo federal. Pesquisas, antes mesmo dos 100 primeiros dias de governo, indicam que as pessoas tendem a seguir ansiosas por novos caminhos possíveis a serem traçados.

“Ah, mas Bolsonaro foi eleito democraticamente com 57 milhões de votos!”

Ninguém está questionando o resultado das urnas, mas a mesma democracia que elegeu Bolsonaro deposita sobre os seus ombros a face do contraditório – inerente aos regimes democráticos. Caberá ao presidente adaptar-se a lidar com os diferentes e as diferenças, ou radicalizar para práticas autoritárias.

Isso colocado de lado, hoje Bolsonaro precisa conviver com as próprias contradições – de quem criticou a reforma da Previdência de Temer, por exemplo, e hoje apresenta uma proposta ainda mais nefasta aos trabalhadores.

“Ela ataca privilégios”, berram alguns… Não preciso dizer muito, basta ir à última página da PEC, na qual diz de onde virá a economia de R$ 1 trilhão em 10 anos: 67% sairão do Regime Geral, onde 85% são trabalhadores com até 2 salários mínimos; e 17% do abono salarial, benefício pago a trabalhadores que ganham os mesmos até 2 salários mínimos.

Ou seja, de R$ 1 trilhão que a PEC diz que irá economizar em 10 anos, 84% serão tirados de trabalhadores com até 2/3 salários mínimos. Na projeção de 20 anos, esse número salta para 90%.

Enquanto o Ministério da Educação está uma baderna, correndo sérios riscos de paralisia técnica, partidários do presidente preferem coletar assinatura para criação de escolas militares – chega a ser patético.

A centralidade das discussões parece caminhar – e precisa ser assim – para o contraponto dessas atrocidades, tende a ser puxado pela defesa da democracia, dos direitos conquistados (ainda que insuficientes), pelas questões dos direitos humanos (que é um debate mais amplo do que “defender bandido”, como dizem os analistas superficiais) e das políticas públicas (a própria campanha da Fraternidade da Igreja Católica traz esse tema, a CNBB soltou nota contra a reforma da Previdência). Também está em debate, e deve ser aprofundado ainda mais, o reequilíbrio dos poderes – menos judiciário na política e menos política no judiciário.

Os campos democráticos chamam ao debate os que ensejam construir com diálogo – e há espaço para diálogo, não é momento de ter medo de dialogar com quem assim pretenda fazer. O foco reivindica-se às políticas públicas que garantam seguridade social, inclusão e ampla participação popular.

Tudo isso antecipa qualquer composição político-partidária para 2020: a disputa de lá será reflexo das construções feitas na caminhada – esta que, por sua vez, já começou.