Na véspera do julgamento do Habeas Corpus de Lula no STF antes de sua prisão, o comandante do exercício brasileiro, Eduardo Villas Bôas, escreveu em seu twitter: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.” A postagem aconteceu no dia 3 de abril. No dia 4, por 6 votos a 5, o STF negou o HC a Lula. No dia 5 de abril, Moro decretou a prisão do ex-presidente.

A publicação de Villas Bôas chegou a ser repudiada pelo decano do STF, Celso de Mello, durante seu voto.

O meio dessa história – os meses seguintes e os seus acontecimentos até os dias de hoje – não precisamos detalhar.

Neste último 2 de janeiro de 2019, ou seja, nove meses após o post de Villas Bôas, durante posse do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, o presidente eleito Jair Bolsonaro disse em seu discurso: “General Villas Bôas, o que já conversamos ficará entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui.” Villas Bôas estava às lágrimas.

Marcado para abril próximo, o STF irá sentar novamente para rever o tema das prisões em segunda instância. No início de 2018, o cenário era de 6 a 5 a favor de se rever essa possibilidade e, assim, ser cumprida a constituição, que diz: “LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;”

Rosa Weber, a ministra que teve o voto mais aguardado e foi contra o HC de Lula, é também contra a prisão antes do “trânsito em julgado” – disse, porém, que seguiria o entendimento vigente no STF desde 2016 (pela prisão em segunda instância); mas pontuou que o tema voltando mais amplamente à pauta, seguiria o seu próprio entendimento; assim, então, ficaria estabelecido o placar de 6 a 5 contra a prisão em segunda instância.

Agora, porém, especula-se que o atual presidente do STF, Dias Toffoli, que foi contrário à prisão em segunda instância na votação de 2016 e a favor do HC de Lula em 2018, irá se posicionar favorável à manutenção do atual entendimento em nome do “equilíbrio do país”.

As provas – que faltam à condenação de Lula – são cada vez mais evidentes de que a solução para a libertação do ex-presidente, que representaria também a restauração do equilíbrio da pluralidade de ideias das lideranças políticas do País, não virá de dentro para fora. Não adianta mais HC, STF, ONU… É preciso reorganização do cenário externo, recompor o tecido social – passos que irão gerar a atmosfera política e, sobretudo, social para a liberdade de Lula. Mas essa mudança não virá por mágica – não há varinha de condão.

Nesse entendimento, pouco adianta a ideia do PT, por exemplo, em não subir o tom contra Bolsonaro. A direita inescrupulosa não esperou nem Dilma sentar na cadeira do segundo mandato para pedir sua cabeça – hoje, parte considerável das lideranças de esquerda, de movimentos e sindicatos, assistem às primeiras medidas de Bolsonaro inertes. O auge são alguns stories no instagram. As ruas estão quietas.

Em 2014, Aécio tinha o apoio de toda estrutura midiática e de mercado para chegar ao poder; perdeu a eleição somando 51 milhões de votos. Foi aclamado como vitorioso dado o placar apertado para Dilma, acreditou nessa narrativa e assumiu a liderança da oposição, até sucumbir abatido pela própria língua grampeada. Fernando Haddad, contra toda a mesma instrumentação, fez 47 milhões de votos – apenas 4 milhões a menos que a Aécio. A narrativa imposta é de um derrotado; até o PT comprou essa máxima.

Não precisava pedir recontagem de votos no TSE ou sair às ruas cobrando a cabeça do presidente eleito, como fez a parte hipócrita, canalha e mesquinha da direita ainda em 2014. Mas Bolsonaro teve 2 meses de transição de governo; as lideranças de esquerda tiveram o mesmo tempo para reorganização da oposição. A impressão é que não o fizeram – agora, se o fizeram, tudo está muito lento.

Sem a construção de uma narrativa sustentável e de contra-ponto ao que está sendo “ofertado” e, consequentemente, a restauração de um tecido político e social no País que seja capaz de reconstruir o passado e fazer entender que o que está posto é uma roupa que não nos serve, não haverá soltura de Lula. A ideia que querem nos impor é que com Lula preso e silenciado, o governo Bolsonaro passará a largo. Com Lula solto e falante, haveria mais ruídos. As instituições já provaram que preferem o silêncio.

Antes de Lula ser um líder capaz de levar multidões às ruas, como fez no ABC durante à ditadura ou em situações posteriores, somente o resgate do barulho das ruas pode mudar o cenário a permitir que o ex-presidente reencontre a liberdade física.

Para conter as atrocidades de Bolsonaro e libertar Lula, como pregam em posts e stories, as lideranças de esquerda precisam chamar às ruas, aos atos… Mais do que nunca, a esquerda brasileira precisa dos seus mobilizadores.

>>> Assina este editorial: Giovanni Romão (jornalista e articulista do blog Papo Sem Censura