O dia 28 de outubro de 2018 por mais que ainda esteja na cabeça de muitos brasileiros, favoráveis ou contrários a Jair Bolsonaro, já é passado. O tema agora é como o deputado carreirista de 28 anos de Câmara Federal irá se articular na cadeira de presidente da república e como os setores de oposição irão construir a contra narrativa e as ações de contra posição às futuras agendas do primeiro governo civil-militar desde a redemocratização.

A equipe de transição é formada por 50% de civis e 50% de militares; o vice-presidente da república é um militar; parte dos ministérios serão ocupados por militares – sete até aqui. O próprio vice, o militar Mourão, já entrou em atrito com o civil e futuro superministro da área econômica Paulo Guedes sobre com quem ficará o comando da Petrobras. Guedes tinha um nome civil; Mourão, não tinha um nome, mas queria um militar. Prevaleceu a escolhe de Guedes: o economista Roberto Castello Branco, que já defendeu publicamente a privatização da estatal.

O governo híbrido segue com a formação de sua equipe ministerial. Onyx Dornelles Lorenzoni (DEM), o futuro Ministro da Casa Civil e o principal articulista político de Bolsonaro, está na equipe de frente da formatação da nova equipe. Relator das 10 medidas de combate à corrupção, Lorenzoni foi citado nas delações do Grupo JBS e confirmou ter recebido R$ 100 mil reais na campanha de 2014 e não ter declaro o valor – disse ainda que entregaria um documento ao MP assumindo a culpa.

O DEM, apesar de ter apoiado formalmente o candidato tucano Geraldo Alckmin, teve braços importantes na equipe de Bolsonaro desde o início da campanha. Além de Onyx, o deputado Alberto Fraga foi apontado por Bolsonaro agora em outubro, em vídeo, como coordenador da bancada no Planalto. Fraga que, em setembro, foi condenado ao regime semiaberto acusado de receber 350 mil reais em propina de cooperativas de transporte.

Ainda não se sabe ao certo o número final de ministérios. Não devem ser mantidos os 29. Fala-se em 22. Guedes vai incorporar o Ministério da Indústria e Comércio à Fazenda – somando-se ainda Planejamento. O setor industrial já reagiu, querendo manter a pasta. Foi anunciada também a fusão dos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, proposta original de Bolsonaro, mas que havia sido recuada ao longo da campanha. O setor ambientalista reagiu negativamente; mesmo parte de ruralistas não concordaram, temendo por sanções internacionais às exportações pela ação caracterizar a quebra de tratados de sustentabilidade, clima etc. Bolsonaro recuou, não que isso represente uma salvação das questões ambientais – vide o ministro escolhido para a pasta do Meio Ambiente.

O Ministério da Justiça, por sua vez, vai ficar com o juiz Sergio Moro. Ele mesmo. Segundo o vice Mourão, o juiz de primeira instância foi consultado ainda durante o processo eleitoral. Antes do primeiro turno, abriu parte da delação de Palocci. Na terça, dia 30 de outubro, pós-eleição, disse que refletiria sobre o convite; na quarta (31) presidiu mais uma audiência da Lava Jata como um “ilibado” juiz. Na quinta (1º) viajou ao Rio para bater o martelo com Bolsonaro. Eis, assim, a melhor forma de acabar não com a politização da Lava-jato, mas com a operação em si, que já cumpriu seu papel, dando ao príncipe da moral e da ética um lugar ao sol. Haverá aplausos: “ele merece!”, berrarão aos sons das panelas a miscelânea de hipócritas.

Moro flertou com o poder até alcançá-lo. Agora será parte do sistema político, mas não mais precisará posar como combatente do bem, da ética e da moralização. Ele será parte da engrenagem e peça de sustentação da mesma. Começou passando a mão na cabeça de Onyx – “ele já pediu desculpas”, disse Moro – e nem tocou no assunto das movimentações financeiras sem explicação identificadas pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), envolvendo familiares de Bolsonaro, como o filho e a esposa.

O mesmo Moro, que repudia a velha política brasileira e a corrupção… Sendo assim, no dia 1º de novembro, no Rio, sentou-se à mesa com um político que tem 28 anos como deputado, um futuro ministro da Casa Civil que confessou ter recebido R$ 100 mil na campanha de 2014 sem declarar e o futuro ministro da economia, o Guedes, que responde no Ministério Público dois processos por gestão fraudulenta em fundos de pensão. Da ponta da mesa, Moro deve ter sido enfático: “Sim, eu aceito a missão para, junto com esse time, limpar a política brasileira.”

Para além dos ministérios, a equipe já pensa também nas “medidas mais urgentes” em especial a reforma da previdência, que deve ser votada ainda no início de 2019 – a equipe de Bolsonaro vai ao Congresso para conseguir um ambiente favorável. Sabe aquela história do fim do “toma-lá-da-cá”, pois é… O sistema é o mesmo, o que mudou foi apenas o formato: a troca de favores agora é feita por meio das bancadas temáticas do congresso, em especial o setor evangélico, da bala e do agronegócio.

Mas ainda não falamos neste artigo sobre educação e saúde, por exemplo. A equipe do Bolsonaro também ainda não entrou de fato nesses temas; eles são secundários, afinal (ironia). A equipe de transição já atua em Brasília, em uma estrutura montada dentro do CCBB, mas Educação e Saúde ninguém ainda veio a público falar de forma clara. A PEC 95 (Teto dos Gastos), que sob Bolsonaro será mantida, já fala por essas duas áreas: elas não serão prioridade nos próximos anos. E cultura então…

Enquanto isso, a oposição se rearticula. Seguem batendo cabeça em temas e egos partidários, mas a pauta mais ampla já levou pessoas às ruas. Afinal, quem perdeu dia 28 de outubro não foi o petismo ou a esquerda, mas um país inteiro. Os 58 milhões que elegeram Bolsonaro não são todos eles fascistas, certamente. Parte queria apenas um Brasil melhor, mas esqueceram de exigir de seu candidato uma explicação objetiva de que Brasil seria esse. Os campos progressistas, por sua vez, também não conseguiram convencer.

Portanto, o Brasil a partir de agora é o que pensa na economia, na divisão igualitária entre civis e militares na equipe de transição e ministerial, no agronegócio, em quem será o articulador político no Congresso, o melhor momento de votar a previdência, quais estatais serão privatizadas… Aliás, deve ter uma plaquinha lá na porta da casa do Bolsonaro, o QG: “procura-se ideias para os ministérios da Educação e da Saúde. Requisitos: respeitar o Teto de Gastos, ser contra a ideologia de gênero, fora Paulo Freire e a favor da escola sem partido”.

Bem-vindos ao próximo governo.