Os três principais institutos do Brasil indicaram algo em comum nesta semana: o resultado das urnas para presidente da república no dia 28 de outubro está aberto. O Ibope de quarta (24) trouxe 4% de queda na diferença entre Bolsonaro e Haddad, de 18% para 14%; já o Datafolha, na quinta (25), mostrou uma queda ainda maior da diferença, que esfarelou em 6%, despencando de 18% para 12%. O Vox Populi repetiu o mesmo cenário da última semana e mostrou a diferença em 6%, em pesquisa divulgada também na quinta (25).

Os números indicam que uma eleição que, sete dias atrás, parecia totalmente decidida agora voltou a abrir o campo do que pode acontecer de fato no domingo. As próximas 24 horas – ou seja, o sábado (véspera) – serão decisivas. O próprio domingo entra no jogo das estratégias de uma possível vitória.

Alguns podem perguntar: “mas o que faz alguém achar que Haddad ainda pode vencer Bolsonaro estando 12% atrás no Datafolha, por exemplo?”. Não vamos nem de Ibope (diferença de 14%) e nem de Vox (diferença de 6%). É simples responder a esse questionamento: o movimento de intenções de votos nos diferentes segmentos da sociedade, dentro das atuais metodologias de pesquisas, nunca foi tão acentuado em uma reta final como está sendo em 2018.

Sigo no Datafolha desta quinta (25) para exemplificar: Bolsonaro não cresce em nenhum segmento social, nem naqueles nos quais tem mais força, como no público masculino (caiu de 58% para 55%), mais de 60 anos (de 54% para 50%), ensino superior (57% para 54%), de cinco a dez salários (de 66% para 61%), mais de 10 salário (de 67% para 61%) e na região norte (de 58% para 53%). Isso para citar os movimentos de queda mais acentuados.

Haddad, por sua vez, cresce em todos. Entre os homens (de 32% para 35%) e mulheres (39% a 41%), de 16 a 24 anos (de 39% a 45%, ultrapassando Bolsonaro), ensino médio (de 31% a 35), superior (30% a 34%), até dois salários (44% a 37%, aumentando a diferença para Bolsonaro), mais de 10 salários (de 24% a 32%), no norte (de 30% a 37%), entre os católicos (de 39% a 43%, empatando com Bolsonaro) e nas religiões de matriz africana (de 56% para 62%).

Esses movimentos por segmento, somados ao aumento da rejeição de Bolsonaro e a queda de rejeição de Haddad, são consequências imediatas de três acontecimentos recentes: 1. a divulgação da fraude das fake News, por empresários ligados a Bolsonaro, quebrando definitivamente a redoma da moral e da ética que cercava o parlamentar carreirista de 28 anos sem projetos relevantes no Congresso – além da interrupção dessa rede de propagação de mentiras, como o tema do “kit gay”; 2. as falas autoritárias do filho ameaçando fechar o Supremo Tribunal Federal; e 3. as falas do próprio candidato, por transmissão online em ato na Avenida Paulista, no último domingo, falando em perseguir opositores, apontando que os mesmos teriam dois caminhos: deixar o país ou serem presos.

A trinca atingiu em cheio a campanha de Bolsonaro, algo que não havia ocorrido até aqui.

Mas além de Bolsonaro esfarelar, como vem ocorrendo, para Haddad ter alguma chance de virar seria necessário ele próprio crescer – este um movimento mais lento, certamente. Ainda assim, neste campo entrou em jogo o papel fundamental das ruas, em ações articuladas por movimentos sociais, partidos dos campos progressistas, como o PSOL, e a própria militância petista. A disposição do #vivavoto tem sido fundamental nesse período, algo que se intensificou do dia 17 de outubro para cá.

Nos últimos cinco dias, Haddad voltou a reforçar sua agenda de rua. Participou de atos importantes na Lapa-Rio e no Largo da Batata-SP, apostando na redução da diferença para Bolsonaro no Sudeste. Agora está no Nordeste, tendo já passado pelo Recife-PE, João Pessoa-PB e Salvador-BA. Todos esses atos reuniram grande volume de pessoas, tornando-se imagens simbólicas da reta final.

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Salvador (BA), nesta sexta (26 de outubro)

Pelas contas feitas pelo blog com base no primeiro turno e nos movimentos dos votos, os desafios principais estão em reduzir a diferença no Sudeste e ampliar a distância no Nordeste – única região na qual Haddad vence com certa folga. Esses pontos principais justificam os atos acima concentrados nessas duas regiões. Bolsonaro vencerá no Sul e no Centro Oeste com certa vantagem, enquanto Haddad ainda busca equilibrar a disputa no Norte.

Para o sábado (27), véspera, são esperados novos atos em todo Brasil, sendo a maioria denominados como “ato da virada”, com temáticas como defesa da democracia e dos direitos.

O debate não é mais se Haddad pode virar o jogo para cima de Bolsonaro, isso está claro que é possível. O que entra em questão agora é o tempo.

O adversário de Haddad não é mais a tendência indicada pelas pesquisas e nem mesmo Bolsonaro. Mais uma semana e a virada era quase certo. Haddad precisa, agora, até domingo, vencer o tempo.

Foto: Ricardo Stuckert