O PT cometeu erros gravíssimos ao longo de sua trajetória a frente do governo federal, desde medidas econômicas pouco assertivas a partir de 2013 até na instrumentalização pouco eficaz para o combate à corrupção. Assim como o PSDB nos anos 1990, os diferentes governos de diferentes legendas nos Estados e nas prefeituras. Como jornalista e ligado ao PSOL, sempre fiz críticas ao PT e continuo entendendo que o partido não tem a melhor alternativa de País – há passos mais decisivos para mudar a nossa caminhada, mas o PT não dá sinais claros de que os adotará, infelizmente.

O centro direita e os setores da direita democrática, na ânsia pelo poder e pressionados por setores poderosos do mercado, embarcaram numa canoa furada de um governo que adotou uma agenda neoliberal ultrapassada e que os frutos podres, de fato, ainda nem começaram a ser colhidos. Nesse limbo de desesperança e falta de projeto para o Brasil, nasceu o salvador da pátria, o homem das soluções simples para a segurança – “armar cada cidadão”, “fechar a Rocinha e metralhar” –, para a economia – “temos que privatizar para acabar com a corrupção” –, e, pasmem, uma visão “profunda” para a educação no Brasil – “temos que acabar com a ideologia de gênero nas escolas”.

Bolsonaro e equipe apresentam medidas rasas, ações pouco claras e um programa que não será capaz de se sustentar com uma semana de governo. Negado como sendo de extrema-direita pela líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, “ele diz coisas desagradáveis e que são intransponíveis na França”; sim, nossa democracia está em jogo! –, o candidato não pode mesmo ir aos debates. O programa que não se sustentará com 10 dias de governo não pode ruir antes mesmo da eleição. Deixaria de ser tão fácil convencer o eleitor que hoje o apoia com a superficial lógica do “não tenho projeto de País, mas mesmo assim me coloca lá que eu vou resolver tudo.” A consciência de tal eleitor poderia pesar de forma antecipada, antes mesmo de viver a situação de ter um conhecido/amigo perseguido e/ou agredido moralmente ou fisicamente por dizer um “não” ao governo posto (como já vem ocorrendo – e não falo só das notícias que surgiram na imprensa, mas de pessoas próximas que vêm passando por situações preocupantes). “Lamento, mas não controlo meus apoiadores”, é o que tem a dizer o homem que quer liderar uma nação depois de afirmar em comício no Acre: “Vamos fuzilar a petralhada aqui no Acre… Vão ter que comer capim mesmo.”

Não, Bolsonaro não pretende ir aos debates. Ele teria que explicar propostas que estão em seu plano de governo ou estão sendo defendidas pela sua equipe, por exemplo: a “adoção de ensino à distância a partir do fundamental”; o “fim dos ministérios do Esporte e da Cultura”; a “liberação do porte de arma” – logo alguém que quando foi assaltado entregou a arma, era 1995, e disse ter se sentido indefeso –; a “redução da idade mínima para 16 anos”, que agora virou 17, além da “extinção do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”; a “criação da carteira de trabalho verde e amarela, na qual o contrato individual prevalecerá sobre a CLT”; a “criação da alíquota única de 20% no Imposto de Renda”, que vai onerar ainda mais as camadas mais pobres e a classe média; a “mudança da lei de imigração e a criação de campos de refugiados” (vide casos recentes nos EUA); e a “fusão do ministério da agricultura e do meio ambiente, com o ministro da pasta sendo indicado pelas entidades de produtores”. Entre tantos outros pontos.

Sustento #HaddadSim por propostas como “reforma tributária para reduzir a carga sobre a classe média e os mais pobres”; a “retomada do aumento real do salário mínimo”; a “mudança da política de preços” adotada por Temer para o combustível, como a gasolina; a “retomada dos investimentos no SUS” e em programas como Clínicas de Especialidades Médias; por “política públicas nacionais voltadas à defesa dos animais”; pelo reforço de políticas às minorias, com estímulo à equiparação salarial e de oportunidades e a ampliação da fiscalização contra crimes por preconceito; “maior participação federal no ensino médio” e no ensino básico por meio de ferramentas como o Fundeb; o “fortalecimento da Polícia Federal no combate ao crime organizado”, reduzindo assim a pressão sobre as polícias estaduais, e investimento em tecnologia para as polícias; e por novas políticas de apoio à agricultura familiar e a ampliação do PRONAF. Entre outros pontos, passando necessariamente pela revogação do Teto dos Gastos e da Reforma Trabalhista – medidas de Temer apoiadas por Bolsonaro.

Falando nele, Bolsonaro não pretende mesmo ir aos debates. Ele sabe que seus discursos e suas propostas não se sustentam ao simples espirro da democracia e isso ficará provado à luz da história. Até lá, ele leva consigo a tranquilidade de quem pode ser eleito na escuridão, justamente para onde levará o País.

(Foto: Ricardo Stuckert)