Por Giovanni Romão (editor do blog Papo Sem Censura)

>>> PT acumula média de 32 milhões de votos em primeiros turnos de 1989 a 2014, cenário que o lança quase que certamente ao segundo turno neste ano

A Eleição 2018 está oficialmente colocada nas ruas, apesar do oficial e controverso período de pré-campanha já ter indicado os rumos dos programas apresentados, a capacidade de discursos e narrativas de cada candidato, além, óbvio, da oficialização das coligações rumo à disputa. Dentro do cenário, o caso de Lula continua sendo o “fato novo” e o mais intrigante do processo eleitoral, desde o posicionamento do Partido do Trabalhadores, até as manifestações de figuras e instituições internacionais, como o Papa Francisco e o Comitê de Direitos Humanos, ligado à ONU, que acompanham com “preocupação” o cenário brasileiro ou mesmo, no caso do Comitê, reforça a importância de que Lula tenha direito de disputar a eleição até que se concluam os recursos, evitando-se assim a possibilidade de “dano irreparável aos direitos”.

Detido em Curitiba, resultado de um processo jurídico-midiático insustentável à luz da história, Lula conduziu as articulações do PT até o dia da convenção e segue no comando, foi registrado como cabeça de chapa e agora aguarda os próximos passos da justiça eleitoral brasileira, que deve analisar seu registro e os recursos contrários – esses baseados na lei da ficha limpa, que erroneamente é vendida à opinião pública como a prisão a partir de segunda instância, quando fala, de fato, sobre representação “em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado”, ou seja, não necessariamente segunda instância, o que justifica e dá sustentabilidade ao artigo 26-C da própria lei: “O órgão colegiado do tribunal ao qual couber a apreciação do recurso contra as decisões colegiadas a que se referem as alíneas d, e, h, j, l e n do inciso I do art. 1o poderá, em caráter cautelar, suspender a inelegibilidade sempre que existir plausibilidade da pretensão recursal […]”.

Cenário atual posto, é importante destacar, e esse é o objetivo deste artigo, que eleição não é fotografia. Há uma bagagem do comportamento do eleitorado brasileiro desde 1989 – primeira eleição direta após a redemocratização. Passamos por sete eleições presidenciais, disputas essas que não podem ser colocadas à margem da análise sobre o que virá a acontecer em 2018, por mais modificado, infectado e complexo que esteja o atual cenário da política partidária brasileira.

Para dialogar sobre esse aspecto dos dados históricos recentes, destaco alguns números que considero relevantes. Para que possa ser objetivo na intepretação, atenho-me ao primeiro turno de cada eleição.

1) PT e PSDB acumulam eleitorado

De todos os partidos que já disputaram a presidência da república desde 1989, PT e PSDB são os que mais somaram votos em primeiro turno. De 1989 a 2014, o PT fez 32 milhões de votos em média em primeiro turno, enquanto o PSDB acumula média de 29 milhões de votos. Nessas sete eleições, Lula disputou cinco e Dilma Rousseff duas pelo PT, enquanto pelo PSDB foram cinco os candidatos: Mário Covas (1 vez), FHC (2), José Serra (2), Geraldo Alckmin (1) e Aécio Neves (1).

Colocando em observação a média de votos dos dois partidos quando estavam na condição de situação, ou seja, tentando fazer sucessor ou buscando a reeleição, o PSDB (1998, reeleição de FHC e 2002, tentando sucessão com Serra) tem média de 27 milhões de votos, enquanto o PT (2006, reeleição de Lula; 2010, sucessão com Dilma; e 2014, reeleição de Dilma) acumula média de 45 milhões de votos nesse cenário. Quando na condição de oposição – aqui excluímos 1989, primeira eleição direta, e 1994, que apontava um cenário complexo após a queda de Collor  –, o PSDB (2006, com Alckmin; 2010, Serra; e 2014, Aécio) tem média de 35 milhões de votos; o PT (1998 e 2002, ambos os casos com Lula), 30 milhões.

Relevante ainda é o fato do PT ser o único partido a superar a casa dos 40 milhões de votos já em um primeiro turno, quando em 2006 Lula somou 46 milhões de votos. Esse número cresce um pouco em 2010, quando Dilma faz 47 milhões, e recua para 43 milhões em 2014, ainda assim acima dos 40 milhões. Considerando que a eleição de 2018 deve somar 110 milhões de votos válidos, seguindo em linha proporcional com 2010 e 2014, superar a casa dos 30 milhões de votos é um cenário pra lá de favorável. Nesse caso e com essa margem, o mesmo PT tem um respiro de 13 milhões de votos a serem perdido desde 2014 e ainda assim ficar acima dos 30 milhões.

2) O que dizem esses números?

A baixa média de votos alcançada pelo PSDB quando na condição de reeleição ou sucessão revela uma deficiência de adesão do eleitorado às suas plataformas eleitorais, na mesma medida que o PT acumula quase que o dobro nesse cenário de reeleição e sucessão, com 45 milhões de votos. Os números reforçam pesquisa recente divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em abril deste ano, na qual 19% dos brasileiros apontam preferência pelo PT, enquanto o PSDB é citado por 6% do público. Na mesma medida, o PSDB acumula média levemente superior ao PT quando na condição de oposição, o que reforça a ideia de que parte do seu eleitorado vem de uma postura pelo “antipetismo” e não necessariamente de uma crença no projeto tucano.

3) E as pesquisas eleitorais?

Por fim, o blog fez um levantamento de pesquisas eleitorais de 2002 a 2014. Pegamos como base dois institutos (Ibope e DataFolha) e usamos como marca de corte o mês de junho. Explica-se o mês pelo seguinte fato: até antes das mais recentes reformas políticas, o período de campanha era de 3 meses e tinha início em julho; então, junho é o último mês sem interferência do período eleitoral para analisarmos com igualdade de condições as eleições passadas e a atual.

Em junho de 2002, Lula liderava as pesquisas com 39% de média entre os dois institutos, considerando todos os votos (não somente os válidos). José Serra tinha 20% de média. No primeiro turno, Lula terminou com 46% dos votos válido e Serra com 23%. Nessa eleição não houve nenhum fato externo relevante colocado em debate, como viria a acontecer quatro anos depois.

Candidato à reeleição, em junho de 2006, Lula liderava as pesquisas com 39% de média entre Ibope e Data, sempre considerando todos os votos (não somente os válidos). Geraldo Alckmin tinha 15% de média. No primeiro turno, Lula terminou com 48% dos votos válido e Alckmin foi a 41%. É importante frisar, no entanto, que esta foi uma eleição marcada pelo caso do Mensalão do PT, revelado no ano anterior, mas que seguiu em sangria ao longo da campanha. Outro dado relevante a ser colocado, até pelo fato de Alckmin ser o atual candidato do PSDB, é o fato de que, em 2006, o tucano perdeu votos no segundo turno, em comparação com o primeiro: foram 39,9 milhões de fotos no primeiro turno, contra 37,5 milhões no segundo turno.

Chegou 2010 e Lula, com altíssima taxa de aprovação, tentava fazer Dilma sua sucessora. Em junho, a petista tinha média de 38% nos institutos, enquanto Serra aparecia com 35%. Dilma fechou o primeiro turno com 46% dos votos válidos e Serra, com 32%.

Observando para a eleição mais recente, de 2014, em meio à Lava Jato e o início dos sinais da crise econômica no Brasil, Dilma tinha média de 36% para reeleição nas pesquisas de junho; seu adversário, Aécio Neves, 20%. No resultado do primeiro turno, Dilma fez 41% dos votos válidos, enquanto Aécio foi a 33%.

Ao colocarmos em perspectiva os cenários dos quatro anos anteriores (2002, 2006, 2010 e 2014) é possível observar que em junho, ou seja, cerca de quatro meses antes do primeiro turno, o eleitor já está praticamente decidido quanto ao seu voto, com o líder das pesquisas terminando em primeiro e o segundo colocado mantendo-se nessa posição em todos os anos.

4) Possíveis conclusões

Para 2018, voltando ao “fato novo” que continua sendo Lula, conforme citado no início do texto, o ex-presidente estaria hoje no segundo turno (podendo até vencer no primeiro), tendo como adversário Jair Bolsonaro. Dois pontos deixam o cenário futuro em aberto: se Lula será candidato e sua capacidade de transferência de votos ao substituto (Haddad, no caso) e a capacidade de Bolsonaro em não se autodestruir.

Também é preciso colocar na mesa a chance que cinco candidaturas têm de superar os 10% dos votos no primeiro turno de 2018: Lula/Haddad (PT), Bolsonaro (PSL), Marina (REDE), Alckmin (PSDB) e Ciro (PDT). Isso dependerá, porém, do desempenho de cada candidatura e como elas conseguirão se encaixar no espectro político e ideológico que condiciona parte da distribuição dos votos.

Por fim, olhando para os números reais, com PT e PSDB registrando uma média geral elevada em primeiro turno nas sete eleições desde 1989, mas dentro de um cenário de desgaste da classe política brasileira, e ainda evocando e ressignificando o ditado “em terra de cego quem tem um olho é rei”, o Partido dos Trabalhadores olha para sua base de “simpatizantes” como quem encontra no fundo de um guarda-roupas um baú de boas memórias. Ao abri-lo, o reencontro com sua própria história lhe dará nova chance de refletir o presente e os números apontam grande probabilidade de recair sobre seu colo o compromisso de liderar a agenda nacional a partir de 1º de janeiro de 2019.

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