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Foto: Giovanni Romão/ blog Papo Sem Censura

Já era 29 de julho de 2018, madrugada, quando Chico Buarque subiu ao palco instalado aos pés dos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. Minutos depois, ele convocou Gilberto Gil que se aproximou com seu violão pendurado no pescoço e uma vivacidade que ninguém diria ter ele passado por duas internações consideradas delicadas nos dois últimos anos.

Chico e Gil posicionaram os microfones nos pedestais e iniciaram ao som do violão: “…afasta de mim esse cálice… afasta de mim esse cálice… afasta de mim esse cálice. De vinho tinto de sangue”.

Era maio de 1973. Reunidos na Phono 73, no Anhembi, em São Paulo, Chico e Gil queriam entoar o mesmo canto. A música, composta especialmente para o show, ficou na balbucia de palavras, no acompanhamento do violão e na marcação da palavra “cálice”. Chico, quando resolveu puxar o refrão como o é, o som foi cortado.

Hoje, em 2018, a mesma dupla de artistas cantou do início ao fim a música “Cálice”. O microfone de Chico Buarque que não funcionou no início de sua apresentação foi simbologia. Assim como simbólico é o momento.

Os contextos são diferentes. O tempo está separado em pouco mais de quatro décadas. Chico não precisa mais cantar “arroz à grega” para compor a melodia que não pode vir acompanhada da letra original. Mas as angústias por democracia, por justiça e pelas liberdades individuais e populares seguem em marcha.

“Cálice” é atemporal, assim como Chico e Gil o são – “Lula Livre”, puxou Gil. “Lula Livre”, retrucou Chico. “Lula Livre”, reverberou uma Lapa lotada, na qual eles puderam, juntos,  reeditar a história ao lado de outras centenas de artistas – músicos, escritores, diretores, atrizes e atores – que, no Festival Lula Livre, falaram sobre esperança em mais de 6 horas de apresentações.

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Foto: Giovanni Romão / blog Papo Sem Censura

O tempo pode determinar a si próprio, repartir a história e até curar feridas. O tempo só não divide os sonhos, os pensamentos e a memória.

45 anos depois, a história superou o tempo.

#LulaLivre

>>> Por Giovanni Romão, editor do blog Papo Sem Censura

 

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