* Trata-se de um texto de ficção, incluindo os nomes dos personagens e da cidade

Eleito para o seu segundo mandato como parlamentar na Câmara de Covil das Cobras, na região oeste do estado de São Paulo, Juliano via construir a sua frente uma possibilidade real: ser presidente da Casa de Leis.

Na outra ponta, com ambiciosas pretensões políticas, Miguel chegava para a sua primeira legislatura e ser alçado à cadeira central da Mesa Diretora não seria nada mal.

Da eleição municipal à sessão que escolheria o presidente seriam três meses. Negociações, alto e baixos, jogos de cena e traições.

Miguel foi chamado para uma conversa com Roberto, “decano” no legislativo de Covil. Roberto propunha a Miguel a vice-presidência da Casa. Fariam de Jaime o presidente. Para essa composição tinham seis votos em mãos – o de Miguel, Roberto, Jaime e de três novos parlamentares de primeiro mandato: Sofia, Reinaldo e Cláudio. De quebra, reduziriam a bancada da base do prefeito eleito a cinco vereadores, em um parlamento de 11 cadeiras.

Os meses passam, as cartas são jogadas, o Executivo entra no tabuleiro. E Miguel insiste: quer a presidência.

As costuras políticas de Miguel, porém, passam a incomodar e num rearranjo entre parlamentares mais experientes, tanto da oposição quanto da base, fica decretado: mais do que perder a presidência, Miguel precisa sentir-se isolado. Mas ainda há três ou quatro nomes que pensam em apoiá-lo, mesmo que sendo certa, àquela altura, a derrota de Miguel para Juliano – o candidato governista ao posto de presidente.

Com anos de Casa, Humberto (então na base e articulando pela eleição de Juliano) senta-se para uma conversa com seu contemporâneo de Legislativo, Roberto. Concordam: é preciso queimar Miguel junto aos novatos.

Plano traçado, hora de executar…

Em tom de apoio, o decano Roberto marca uma reunião na antevéspera da eleição da Mesa no escritório de Miguel para reunir o grupo e fechar a votação que aconteceria dois dias depois.

No mesmo dia, Juliano (candidato da situação) liga para Miguel (candidato da oposição): – Queria conversar com você, ainda hoje, para encontrarmos caminhos comuns para a eleição de domingo. Miguel aceita.

A reunião com o grupo está marcada para às 18h. O encontro de Juliano e Miguel fica para às 17h30. – Não posso demorar, tenho outro compromisso – diz Miguel. Juliano sabe que tem um desafio: segurar Miguel e fazê-lo, assim, atrasar para o compromisso com o grupo.

Enquanto isso, no escritório de Miguel começam a chegar os integrantes da reunião: o mentor Roberto está acompanhado de Jaime, Sofia, Reinaldo e Cláudio.

O plano funciona e Miguel demora a chegar.

O relógio já explode 18h e o experiente Roberto entra em cena: — É dessa forma que Miguel quer ser presidente, quer nosso apoio, sem capacidade nem para cumprir o horário de uma reunião? Isso é inadmissível. Desrespeitoso. Qualquer possibilidade de apoio está rompida.

Enquanto isso, na outra ponta da mesa estão as inúmeras possibilidades de acordos a serem oferecidos aos novatos desolados com o desrespeito de Miguel. Este, por sua vez, quando chega ao escritório para a reunião com o grupo depara-se com o total de votos que teria dois dias depois: zero. Qualquer cenário diferente desse, restaria somente o próprio voto para manter seu ego em alguma altura capaz de ainda alcançar o espelho nas manhãs seguintes.

 

* Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência

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