Por Rafael Persan

Antes de começar este texto, gostaria de deixar claro alguns pontos: 1) eu não me sinto totalmente confortável para falar sobre transexualidade, pois sou cisgênero; 2) apesar disso, já que tenho um espaço no Papo Sem Censura, acredito que é minha obrigação discutir o tema, logo, o ponto 2 anula o ponto 1, mas com ressalvas; 3) se eu cometer qualquer deslize, peço desculpas de antemão e prometo aprender com meus erros, aliás, discutir gênero é algo que sempre nos leva a aprender cada dia mais; 4) não entendo quase nada de fisiologia, mas isso não me impede de pesquisar sobre o tema.

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A ponteira do Bauru Tifanny Abreu é a primeira mulher trans a competir em uma Superliga Feminina de Vôlei no Brasil

Vamos lá: Por que a presença de Tifanny Abreu, jogadora trans que defende o Bauru na atual temporada da Superliga Feminina, incomoda tanto? A principal opinião sobre o desconforto que permeia a discussão é o fator biológico, uma vez que Tifanny foi designada ao sexo masculino ao nascer e construiu o seu corpo a base de testosterona. Muitos atletas profissionais como Ana Paula Henkel e Sheilla Castro dizem que a jogadora ainda tem “corpo de homem” por mais que atualmente os hormônios estejam compatíveis.

Segundo o COI (Comitê Olímpico Internacional), para uma mulher trans integrar a seleção feminina de qualquer modalidade esportiva, o nível de testosterona (hormônio masculino) tem que estar abaixo dos 10 nanogramas. O de Tifanny é de 0,2 nanogramas. Zero vírgula dois. Logo, a jogadora tem o aval do comitê para disputar as partidas.

O debate fica ainda mais acalorado quando as pessoas afirmam que uma mulher trans tem vantagens em quadra sobre uma mulher cis. Será mesmo? A fisiologia até hoje não tem estudos suficientes para provar que uma pessoa que mudou de gênero com tratamento hormonal tem superioridade em seu desempenho. Afinal de contas, nunca se teve interesse em estudar as características físicas das transsexuais. Por isso, não é possível afirmar com segurança que mulheres trans podem competir em condições superiores às atletas cis. Aliás, como se mede essa vantagem? Eu, por exemplo, sou um homem cis e tenho menos força nos braços do que muita mulher cis por aí. Aliás, isso só comprova que preciso ir mais à academia.

E quais mais vantagens a Tifanny têm sobre as outras jogadoras? Se a gente fizer uma rápida pesquisa, vamos nos deparar com alguns dados*: 1) o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo – o triplo de assassinatos em comparação ao México, o segundo colocado do ranking; 2) a estimativa de vida de pessoas trans brasileiras é de apenas 35 anos – menos da metade da média de pessoas cis, que é de 75 anos; 3) a evasão escolar de travestis e transexuais é de 82% e os motivos giram em torno da insegurança, violência e agressão física sofrida na escola; 4) existem cerca de 750 mil transexuais no Brasil e apenas 11 cidades contam com ambulatórios especializados; 5) 90% das mulheres trans recorrem à prostituição em algum momento da vida para sobreviver, pois não há oportunidade de emprego em outras áreas.

É preciso entender que a Tifanny é a exceção da exceção da exceção dentro de um país que agride, mata, hostiliza e faz piada com jogador de futebol que é flagrado tendo uma noite de farra com travestis em hotel. A ponteira do Bauru conseguiu, no auge dos seus 33 anos, ser uma profissional de destaque, superando todas as expectativas em relação ao que se espera de uma mulher trans. E a sua força não está apenas no seu 1,92m de altura. Está na resiliência em superar todos os obstáculos para ser quem é e lutar pelo seu espaço.

E pelo espaço das demais: nas quadras de areia, Carol Lissarassa, 27 anos, é mais um caso de sucesso de uma mulher trans no esporte. A jogadora foi convidada para representar o Brasil no Gay Games, em Paris. Sua dupla? A oito vezes campeã mundial e medalha de bronze em Londres 2012, Juliana Silva.

Por isso, no Dia Nacional da Visibilidade Trans é preciso se despir da “velha opinião formada sobre tudo” e analisar com cuidado o seu discurso. Tiffany não possui vantagem competitiva sobre ninguém. Seus hormônios estão estabilizados e a sua força é compatível com a das demais jogadoras. Então, lembre-se disso antes de dizer que a presença dela em quadra abre precedente para homens cis e gays migrarem para a seleção feminina. Isso é, no mínimo, falta de noção e coerência.

É claro que a presença de Tifanny vai gerar desconforto, pois quando não entendemos algum assunto, é natural nos posicionarmos de forma contrária. Por isso, é necessário focar na finalidade do esporte enquanto fator de inclusão social. Aliás, percebeu que até agora não citei casos de homens trans? A invisibilidade é tão grande, que as pessoas até esquecem de determinados grupos na sociedade. O debate é amplo, eu sei, porém necessário. A única coisa que peço é para nós olharmos para as pessoas trans enquanto cidadãos e cidadãs do mundo, pois ofender a Tifanny nas redes sociais não levará a uma discussão social e inclusiva, que deve ser o cerne da questão. Vida a longa a Tifanny!

* Dados extraídos de pesquisas elaboradas pela ONG TGEu (Transgender Europe), pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

>> Perfil Rafael Persan: “Você sabe quem são as pessoas LGBTQ? Então, esse espaço vai te ajudar a entender as pautas debatidas por um grupo de pessoas que busca inclusão, respeito e um bom produto produto para não deixar a pele oleosa.”

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