Sempre que escrevo editoriais ou artigos de opinião procuro buscar referências de escritas antigas que sustentem as novas linhas ou que serão derrubadas pelas novas análises – isso é um exercício por meio do qual objetivo à coerência e à lógica. E, de quebra, permite-me construir um diálogo linear dos fatos, mesmo que distantes no tempo. Por isso, ao escrever este primeiro editorial de 2018, retomo algumas ideias fixadas em artigos anteriores.

Ainda em outubro de 2016, após a vitória de Isael Domingues nas urnas, avaliei que o primeiro ano de gestão poderia ser de composição política em “prol” da cidade, mesmo que para isso fosse à baila o fisiologismo (está aqui). A presença de ex-assessores parlamentares de vereadores (e mesmo o filho de um) eleitos, vindos da oposição a Isael durante a campanha, ou a indicação e ingerência em algumas áreas, como ocorrido no caso do Turismo, são fatos que corroboram a ideia lançada do fisiologismo. Os números finais do Legislativo em 2017, conforme descrito em artigo que pode ser lido aqui, fecham a conta de que, dentro das estruturas institucionais, houve a tal composição.

Fora dessa estrutura, então sim, deu-se o problema maior. Em grande parte, e termino por ser repetitivo ao voltar nessa tecla, por um diálogo truncado e pouco transparente, o que rompe com os princípios da Gestão Integrada lançada por Isael ao apresentar seu time de secretários ainda no fim de 2016. Narrativa fraca que marcou também o Legislativo, incapaz de debater grande parte dos projetos aprovados, mesmo em situações (poucas) nas quais houve um placar apertado pela aprovação. Nem mesmo a base do prefeito teve capacidade de defender projetos, em parte até positivos, como citado pelo blog o caso do ISS, que preservou alíquotas mínimas em áreas fundamentais como saúde, esporte e cultura, além da previsão de maior controle sobre esses pagamentos por parte das instituições bancárias.

Há ainda a tese da “meia dúzia que só quer atrapalhar”, como dizem alguns. Mas, justamente, se isso é um fato, estamos falando de meia dúzia, num contingente de milhares de habitantes com o qual é possível estabelecer diálogo – desde que este seja pautado na transparência e na coerência. Por fim, dos partidos que não encontram hoje representativa nem na Câmara, nem espaço na máquina pública do poder executivo, Isael encontrou maré baixa. Nem mesmo partidos de esquerda, em temas tão pulsantes a esse grupo, como o aumento de 11% na passagem de ônibus ou a taxa extra de IPTU, moveram-se ao campo do diálogo ou de ações mais concretas. Há, certamente, vozes isoladas, mas que não fazem composição; portando, não há discurso robusto para criar política.

Os desafios político-partidários, tanto para Isael quanto para dentro da Câmara, encontrarão tablado de exibição em 2018. Este, sim, será um ano mais intenso politicamente, especialmente com o aproximar das eleições de outubro. Cenário que talvez justifique a tentativa do poder executivo em trabalhar um discurso mais positivo, facilmente observado na presença mais constante do prefeito nos veículos de imprensa e mesmo nas redes sociais, como a retrospectiva realizada em sua página em dezembro. O ano eleitoral está posto, ora pois. Haverá troca partidária, os interesses pelo campo da disputa voltam já no início do ano por conta das eleições de outubro, a máquina pública tem peso e um grande número de forças políticas iniciam uma organização olhando lá na frente, em 2020.

O diálogo fraco e a narrativa incapaz de chegar às pessoas em ano não-eleitoral tem peso X; a mesma realidade, em ano de disputa, certamente atingirá valor 2x. As margens ficam mais estreitas e os interesses em jogo mais complexos, bem como as soluções para os conflitos, ainda mais quando há muita colher em um só caldeirão. Serenidade seria o melhor remédio para o ano, mas antes disso será preciso o reencontro, minimamente estruturado, com a dialética, na participação efetiva de todas as vozes possíveis de se representarem no campo democrático.