Por Rafael Persan

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Pabllo Vittar, Linn da Quebrada e Ana Vilela são os grandes nomes da Música Queer Brasileira

Eu juro que tentei começar meu terceiro texto da coluna sem citar Pabllo Vittar, mas isso é praticamente impossível em 2017. Ela é o grande nome da música brasileira deste ano e, por isso, a maior projeção LGBTQ+ no cenário musical. Então, resolvi apenas aceitar – inclusive, aceita você também porque ela é maravilhosa. Após o sucesso meteórico na internet com o videoclipe de “Open Bar” (Lean On – Major Lazer e DJ Snake com participação de MØ), a drag queen lançou um EP na mesma pegada e com versões livres de músicas internacionais. Infelizmente, por questões legais, o álbum e os vídeos foram retirados do canal oficial da cantora no YouTube, mas você encontra facilmente na internet (ouça aqui o EP “Open Bar”).

Para alegria dos vittalovers (assim são chamados os fãs da Pabllo Vittar), no início deste ano, a cantora lançou de forma independente seu primeiro álbum de estúdio, “Vai Passar Mal”, com direito a música oficial do carnaval (“Todo Dia”); a Música do Ano no prêmio “Troféu Domingão – Melhores do Ano”, do Faustão (“K.O.”); a clipe deletado do canal após uma invasão de hackers, mas recuperado e, até o momento, com mais de 250 milhões de views (“K.O.”); a um contrato assinado com a Sony Music e a um álbum com versões remixes de “Vai Passar Mal” mais o hit “Open Bar”, ufa.

> Assista ao videoclipe de “Corpo Sensual”, de Pabllo Vittar (participação de Mateus Carrilho), que foi gravado aqui na região, em São Bento do Sapucaí

Outras artistas drag queens também estão dando o que falar na cena musical – quem diria que isso ia acontecer no Brasil, não é mesmo? O bonde é formado por Gloria Groove, que chama atenção pela voz potente e pela qualidade musical, misturando pop, hip hop, rap e trap; Aretuza Lovi, recém-contratada da Sony Music e que traz brasilidade e swing nas suas músicas; e Kaya Conky, que apresenta batidas de funk e tecnobrega em suas canções.

Música Popular Sapatônica

As mulheres são sempre invisibilizadas em nossa sociedade e trazer luz para a produção artística feminina é essencial. Em 2016, o Brasil conheceu Ana Vilela tocando violão de forma despretensiosa em um vídeo no YouTube. A repercussão de “Trem-Bala” foi tão grande, que a canção teve lançamento oficial este ano, com um clipe que já bate 40 milhões de views e inúmeras versões autorais espalhadas pela internet, além de uma regravação com participação do cantor Luan Santana.

Além disso, no universo independente, temos a GA31, que traz letras sobre aceitação, liberdade e amor lésbico em seus bits eletrônicos conceituais – aliás, ela recentemente lançou o álbum “Supermodern4”. Também figuram no cenário musical a paraense Aíla, que produz música para você sair dançando pela rua; a estrondosa voz de Camila Garófalo, que tem um “q” meio psicodélico em suas canções e um groove pesado; e o Obinrin Trio, que traz letras feministas embaladas por ritmos como maracatu, jongo e baião.

> Assista ao clipe de “Elas por elas”, de Obinrin Trio, um poema escrito por Lana Lopes, integrante do grupo. “Obinrin” significa mulher em iorubá

Música popular transviada

Se você não é um aprendiz de MBL, pode seguir com este texto, mas aviso que agora vamos falar de coisa séria, vamos falar de Linn da Quebrada. Este ano, a cantora nos presenteou com o poderoso álbum áudio vídeo “Pajubá”, que apresenta letras fortes sobre o cotidiano das gays afeminadas, pobres, pretas, periféricas e travestis deste país. Linn não segue padrões. Questiona! Dá aula sobre gênero fluido. E é difícil de ser tragada até pelo ser mais desconstruído. Mas, mesmo assim, é um oásis musical a cada canção, que surpreende pelas batidas de funk eletrônico, pelas histórias de amor sob outros pontos de vista (da travesti, da mulher trans, do homem gay afeminado etc.) e pela inteligência nos incríveis trocadalhos (ouça aqui álbum áudio vídeo “Pajubá”).

> Junto de “As Bahias e a Cozinha Mineira”, Linn protagonizou a nova campanha da Absolut que debate o poder da arte sob o progresso da sociedade. Tá, querida?

Funk popular enviadecido

Em terra de “meu pau te ama”, fazer “Boquetáxi” é inadmissível. Hino das pistas LGBTQ+, a canção da drag queen Lia Clark teve seu clipe censurado pelo YouTube inúmeras vezes até ser retirado. Recentemente, voltou ao ar em uma nova versão. Porém, o barulho foi necessário para discutirmos questões ligadas à homofobia, à discriminação e ao machismo. O conservadorismo tenta (e por vezes consegue), mas é bom lembrar que, como diz Pabllo Vittar, somos “indestrutíveis”.

> Assista a obra-prima “Chifrudo”, de Lia Clark (participação de Mulher Pepita), e aceita que elas são gostosas

O funk queer também é agraciado pelas maravilhosas Mulher Pepita, que discursou lindamente na premiação “Women’s Music Event Awards”, da Vevo (assista aqui), e que canta as nada conservadoras “Uma Vez Piranha” e “Tô a Procura de Um Homem”; Mc Xuxú, que dá voz às viciantes (sim, muito viciantes) “Bonde das Travestis” e “Um Beijo”; e Mc Trans, que manda vários papos retos em “Eu Não Sou Obrigada a Nada” e “Lacração”.

Música cult queer

Nem só de bate-cabelo viverão as viadas. Por isso, uma gama de cantorxs com uma pegada mais MPB contemporânea, R&B, rock and roll e soul está dando o que falar. O nome mais popular da atualidade é Liniker, que explodiu no YouTube com as grandiosas “Zero”, “Louise du Brésil” e “Caeu”. Por coincidência, na mesma época, Lineker ficou conhecido. Sim, dois cantores distintos e quase com o mesmo nome. Com um estilo mais indie, o cantor apresenta performances incríveis em seus shows. E, para não confundir mais, Liniker (com “i”) acrescentou a sua banda ao nome e agora é conhecido por Liniker e os Caramelows.

> Veja o clipe de “Sem nome, mas com endereço”, de Liniker e os Caramelows, música que faz parte do primeiro álbum de estúdio, “Remonta”

A lista fica completa com o talentoso Johnny Hooker, que tem em seu currículo dois álbuns de estúdio, músicas em trilhas sonoras de filme (“Tatuagem”) e de novelas da Globo, na qual também atuou (“Geração Brasil”) e algumas polêmicas desnecessárias com Ney Matogrosso e (pasmem) Tatá Werneck. Além dele, temos a delícia musical de As Bahias e a Cozinha Mineira, a mistura de elementos do new wave e do post-punk de Verónica Decide Morrer, a performance inigualável de Jaloo, a ferocidade de Caio Prado e a sonoridade de Silva, que recentemente lançou uma releitura das músicas de Marisa Monte – ouçam pelo amor de Gaga.

Rap também é lugar queer

O machismo não passará. Prova disso está na inserção de rappers queers no cenário musical brasileiro. Conhecido pela parceria com a Pabllo Vittar e pela polêmica sobre o hit “Todo Dia”, o cantor Rico Dalasam é um show à parte. O rapper apresenta letras sobre orgulho gay, negritude e aceitação e seu potencial é inegável. Quem também se destaca é o performático Gu1hgo, que apresenta a antinormatividade em seu discurso político. Além deles, temos a rapper não-binária já conhecida de vocês, TRIZ.

> Veja ao clipe de “Fogo em Mim”, de Rico Dalasam (participação de Mahal Pita), que traz uma batida irresistivelmente dançante

Quer ouvir mais música queer brasileira? Ouça a nossa playlist no Spotify 

> Perfil Rafael Persan: “Você sabe quem são as pessoas LGBTQ? Então, esse espaço vai te ajudar a entender as pautas debatidas por um grupo de pessoas que busca inclusão, respeito e um bom produto produto para não deixar a pele oleosa.”

Coluna_Rafa

 

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