Não deixei de acreditar na relevância dos partidos – longe disso e muito pelo contrário –, mas em minhas reflexões e análises mais recentes, a reconstrução da esquerda passa diretamente por uma autocrítica ideológica, econômica, social e política, para além da disputa partidária ainda muito efervescente inclusive entre os partidos de uma mesma corrente ideológica – mesmo que separados em princípios e práticas. Para além disso, entendo que a reconstrução da democracia brasileira – primeiro e urgente passo – e o reascender dos ideais da esquerda estão ligados, necessariamente, à vida política nas cidades, nos bairros, nas comunidades.

As reformas do governo golpista de Michel Temer não podem superar em importância os assuntos que acontecem num raio muito menor de atuação política – seja ela orgânica, partidária, de movimentos e coletivos, etc. É na cidade, nos bairros, onde será possível resgatar o olhar para o diferente e barrar mesmo que em menor escala os efeitos do golpe.

Em resumo, a reconstrução da democracia e o reflorescer da esquerda precisam nascer da base, de pensamentos e ações, em um novo olhar para uma nova dinâmica econômica e social [e tem muita gente debatendo alternativas], quebrando paradigmas e rompendo com a lógica de pensamento que ainda marca a maior parte das esferas de atuação. E a postura de rompimentos constantes entre partidos e grupos de esquerda são elos que ainda nos prendem à velha forma de pensar e agir na política. É preciso quebrar com essa lógica para, então, seguirmos. É preciso divergir sempre, mas romper é, certamente, fazer o jogo que o sistema atual aplaude silenciosamente.

Precisamos reforçar o olhar para os cantos dos municípios e para o que vem acontecendo nas esferas da política local a fim, como dito acima, de minimizar os efeitos do desmonte e da diminuição das responsabilidades do Estado – e não falo do tamanho do Estado, pois esse é assunto mais profundo – como o promovido pelo governo ilegítimo de Temer e seus aliados – alguns desses com dedos em Pindamonhangaba na figura de deputados federais que por aqui passaram e seguem passando.

Olhando para o nosso local, em Pindamonhangaba:

Não pode passar como irrelevante um aumento abusivo de 11% na passagem do transporte público, ainda mais um serviço com contrato vencido desde 2014 empurrado via aditivos  – passagem foi de R$ 3,50 para R$ 3,90; no Rio de Janeiro, a título de comparação, a passagem era de R$ 3,80 e hoje está em R$ 3,60 depois de uma decisão judicial. Não pode ser irrelevante o fato dos poderes constituídos convocarem audiências públicas e não sair do papel nem mesmo o termo de referência para a licitação do transporte público. Parlamentar chegou a andar de ônibus, ir à imprensa e dizer que de fato o transporte precisa melhorar. E, meses depois, nem mesmo toca mais no assunto para cobrar o poder executivo.

Não cabe ser irrelevante uma Reforma Administrativa passar a toque de caixa com cinco dias de governo, alegando-se que de fato existiam falhas na matéria e uma reforma mais completa seria realizada na sequência e, dez meses depois, nada…

É relevante, e não pode ser diferente, estar atento às mudanças realizadas na saúde sem o mínimo de diálogo com a sociedade, diante de um poder executivo em embate constante com o Conselho Municipal de Saúde e um legislativo inerte, em especial nos casos envolvendo o Laboratório de Exames e o caso do SAMU. “Ah, mas abriu-se CEI”. Cri, cri, cri… Omite-se, o legislativo, à narrativa, ao diálogo e à participação mais efetiva.

Não cabe silêncio diante das interferências descabidas de um deputado estadual na cidade, como fez Padra Afonso ao dar entrevistas e confirmar que a secretária de saúde é sua indicada e sobrinha, mas que se entender que a saúde não está funcionando será o primeiro a apontar para uma troca. Falou em roubos no laboratório de exames clínicos para justificar o credenciamento. Afirmou que o prefeito precisa dialogar mais com a cidade e fez críticas ao secretário de Gabinete. É no mínimo espantosa tal interferência.

Não há margem para passar batido uma cobrança de IPTU extra sem um diálogo prévio com a sociedade e anunciado de um dia para o outro por meio de publicação institucional. É para despertar o alerta um legislativo que se curva, não consegue aprovar se quer uma emenda no projeto de uma Farmácia Solidária, mas entrega todos os votos na aprovação de uma matéria da qual os mesmos não concordavam.

Não dá para ser indiferente à troca de cargos entre Executivo e Legislativo num fisiologismo descarado e que nos remete às piores práticas da política.

Ainda sobre Pindamonhangaba, entre a realidade [acima] e a utopia, sempre farei opção pela segunda, mas certamente não há como fechar os olhos para a primeira.

Apesar do artigo iniciar falando sobre a reconstrução da esquerda [diálogo ainda mais difícil devido à realidade local em termos de composição partidária nos campos da narrativa no legislativo e no executivo; e mesmo fora dessas esferas], tenho comigo – e, por isso, sigo acreditando – que alguns que compõe atualmente a máquina pública conhecem os caminhos para construir diferente [e o diferente], incluindo o chefe do poder executivo [já falei isso aqui em artigo publicado em março deste ano] e alguns vereadores – por ora cito Osvaldo Negrão e Renato Cebola.

É preciso, num primeiro passo, no entanto, reencontrar-se com a narrativa, uma vez que os cenários como os acima expostos não irão mudar do dia para a noite, mas no curso da história é nosso papel combater “tais práticas” no dia a dia para construir algo diferente do que está posto. Afinal, o que está posto é “uma roupa que não nos serve mais”.

Anúncios