Por Valéria Duarte

A passagem pelo equinócio, dia em que o sol ilumina perpendicularmente o paralelo do Equador, nos conduz para a primavera aqui no hemisfério sul e, para o outono lá no hemisfério norte. A Terra, essa bailarina incansável, gradativamente se desloca rumo à estação mais iluminada de todas, o verão.

Já é possível perceber que os dias estão cada vez mais iluminados, por vezes, me pego saltando da cama temendo ter sido traída pelo relógio tamanho o assanhamento dos passarinhos que cantarolam ao amanhecer. Esqueço-me que a lógica da natureza não obedece às engrenagens do relógio. Nesse simétrico bailado do planeta, o sol é o maestro das estações e, consequentemente da vida que anuncia a luz ao seu canto.

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Meu entusiasmo por esse momento especial do ano é tão grande, que não me recordo de festejos populares cujo objetivo seja comemorar o inverno, cá entre nós, eu comemoro o seu fim, tirando o vinho e as comidas encorpadas, essa estação não tem lá muita graça.

Na primavera do meu lugar, “não tem samba até de manhã, nem tem lá tanto gingado no andar”, mas a luz se encarrega de trazer à rua as pessoas grandes e as pessoas pequenas. Nos finais de semana, as calçadas da rua principal ficam lotadas de gente de todo o canto para apreciarem e torcerem pelo futebol de várzea. As crianças lotam as pracinhas, sem se preocuparem com horário para as brincadeiras, que duram até além do anoitecer.

Lá na esquina do campinho onde rola o futebol, tem o mercadinho, a lotérica, a farmácia que sempre tem disponível uma amostra grátis, tem o açougue, que  todo domingo anuncia no face book frango assado, farofa e maionese e, tem o camelô que vende de tudo um pouco, além de alegrar a rua ora com forró, ora com rock and roll.

Aqui todo mundo se conhece, a festa na rua acaba assim que acaba que o futebol, se há vitória do time da casa, o foguetório é de fazer inveja a qualquer Maracanã, mas se nós perdemos o jogo logo é possível ouvir as palavras elogiosas ao eleito por tal crime, o juiz, é claro.

Em questão de minutos a rua se esvazia, acabou o futebol, acabou a festa, o camelô vai embora, as pessoas se apressam para ir ao supermercado e, logo a gente sente aquele cheirinho de churrasco que dura a tarde toda.

No finalzinho do dia, os passarinhos voltam a bailar pelo céu anunciando a noite, lá na esquina é possível avistar o Ipê Rosa que tem um colorido especial quando o sol encosta lá no horizonte.

Nesses dias que se aproximam da Primavera , quando vejo o céu azulzinho e as ruas floridas de gentes e flores empresto as palavras do poeta Alberto Caeiro:

Quando chegar a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada

A realidade não precisa de mim.

(…)

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

(…)

A Primavera  tem início hoje, dia 22 de setembro , às 17h02 min .

Apreciem seu encanto!

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