Por Ademir Pereira

… quando passo perto de uma livraria os livreiros convidam-me para entrar para autografar os livros. Olham-me sorrindo, comentando que eu sou uma felizarda. Com tantas manifestações que venho recebendo eu estou inquieta interiormente. Tenho a impressão que sou ferro banhado a ouro. E um dia o banho de ouro esmaece e eu volto a origem natural – o ferro .  São palavras de Carolina Maria de Jesus, do livro  “Casa de Alvenaria”.

Seria um trecho qualquer de uma escritora qualquer. Mas, não. A resistência da elite cultural do Brasil, em sua maioria, rechaça com veemência a inclusão da escritora no currículo escolar. E por que?  Porque é inculta! Estudou os primeiros anos do antigo primário e só. Cometeu erros grosseiros de gramática. Seria uma desinformação linguística para os nossos alunos.  Muito estranho que tenha se tornado leitura obrigatória  fora do país, sendo inclusive, objeto de estudo em alguns.

Aqui no Brasil teve seu sucesso logo que escreveu Quarto de Despejo e a burguesia reconheceu o seu valor, como de praxe , naquela tentativa de demonstrar sua capacidade de compreensão e reconhecimento (atributos cristãos), mas não aceitaria por muito tempo, uma mulher preta, favelada, catadora de papel, em seu elenco de escritores. Melhor tratá-la como um bicho exótico, assim se mantém como alguém extraordinário que não pertence exatamente à classe.

Contudo, Carolina relata o seu dia-a-dia nos primeiros livros e por trás dos fatos aponta profunda e delicadamente um ser em busca de entendimento da vida… como qualquer escritor de renome. Todos os escritores falam do ser humano, da existência, da imensa incógnita que é tudo isso… mas Carolina Maria de Jesus não pode! Ela erra na gramática. Sua concordância nominal e verbal, “é tão deficiente!”

E  quem é ela para  falar de coisas tão nobres e importantes? Catadora de papel ! (Isso é tão instituído nas regras sociais que até os favelados concordam, às vezes).

A escritora apostou todo o dinheiro que ganhou em escrever e publicar os seus livros. Como bicho exótico, satisfeita a curiosidade, a burguesia recoloca o animal onde ele deve ficar. Mas, mais que bicho exótico, Carolina foi bicho feroz e não parou de escrever e fazer tudo o que tinha vontade, nem sequer carregou a bandeira de preta e pobre, somente, como queriam.  Foi atrás de seu sonho profundo e ambicioso: – os porquês da existência.  E, quer queiram quer não, uma mulher preta, favelada, catadora de papel e… escritora, merece toda a nossa reverência.

>> Perfil Ademir Pereira:  “Hesitei logo de cara (em escrever neste espaço), pelo respeito pelo blog e por achar que, pelas facilidades das redes sociais, vivemos numa enxurrada de  “opiniões” como se fosse até obrigado a tê-las e, o que é pior, expressá-las. Apropriando-me, então, de um pensamento majestoso de Voltaire: – posso não concordar com uma palavra do que diz, mas defenderei até à morte o direito de dizê-la; e, pegando carona, com a devida reverência, acrescento humildemente, que tudo o que escrever será apenas um ponto de vista, longe de ser uma verdade absoluta. Aberto pois, à reflexão sob todo o aspecto. Guardaremos no bate-papo ( sem censura, claro), o respeito pela pessoa – aff, a gente tem perdido a mão nesse quesito! Refletir sobre esse mundo que tanto está nos assustando, quem sabe pode nos levar a concretizar um sonho de uma vida melhor. Então, bora sonhar, que não custa nada!

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