Por Giovanni Romão

ditadura

“Surgida” em Atenas, na antiguidade clássica, a democracia está longe de ser declarada como o melhor modelo de governança, mesmo sendo o mais comum adotado pelas nações na contemporaneidade – envolvendo cerca de 60% da população mundial atualmente. Defendido por muitos como o mais justo e igualitário, o sistema só poderá ser julgado com propriedade pelo tempo da história e suas transformações de ordem econômica, de guerras e ideologias, entre outras que, certamente, virão pela frente – assim sempre foi; e assim será.

Adotada por cerca de 120 dos 192 países constituídos, a democracia ainda é frágil em muitos Estados, principalmente os que passaram por períodos de regimes autoritários nas décadas posteriores à Segunda Grande Guerra. Perfeita ou imperfeita, ideal ou não, a democracia está hoje para os brasileiros como um escudo fundamental diante das correntes, mesmo que enfraquecidas, que defendem uma nova intervenção militar.

Em função dos 50 anos do golpe de 1964, em 2014 o assunto está sendo debatido com mais ênfase. Há comemorações pelo meio século do que os defensores do golpe chamam de contrarrevolução à instalação de um regime comunista no Brasil – que seria liderado à época pelo presidente João Goulart. Derrubaram Jango e os militares foram ao poder – e nele permaneceram por duas décadas. Economicamente, o Brasil cresceu a altas taxas sob a batuta militar, na mesma medida que a concentração de renda atingiu patamares absurdos. No coeficiente de Gini – índice de medida de desigualdade –, que vai na escala de 0 a 1, sendo que quanto mais perto de zero menos desigual é a distribuição das riquezas de um país, ultrapassamos a casa de 0,6 no período militar. Hoje, ainda elevado, o Gini está perto de 0,5. Ainda há muito o que se fazer. Mas é certo que avançamos.

No entanto, foi no campo dos direitos humanos que mais retrocedemos no período do golpe. O Estado, poder máximo constituído da nação, torturou civis. Matou mais de 400 pessoas. Ocultou corpos. Forjou suicídios.

Hoje, 50 anos depois, homens celebram o golpe, evocam a reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que antecedeu o golpe de 64 – mas que, em sua nova empreitada, não mobilizou mais do que mil pessoas nos principais centros. Que bom! Um fracasso, assim como foi o período militar…

Diante dessas poucas vozes que ainda ressoam por uma nova intervenção, deixo aqui meu sentimento de repúdio, indignação e tristeza. As experiências – todas elas e em suas formas – devem ser vividas e, delas, extraídos os aprendizados. Mas quando falamos de nação, de Estado, temos que ter claro que o mesmo deve atender aos interesses da maioria, e não se curvar às vontades de pequenos grupos – a maioria deles de elite –, financiados por capitais imperialistas.

Aos que defendem a democracia – grupo na qual me incluo –, a nós está designada a tarefa de desenvolvê-la, aperfeiçoá-la… E, assim, torná-la sólida e sustentável. Avante num país ainda em construção!

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* Modificado, artigo publicado na edição de abril da Vitrine Revista, já em circulação em Pinda e região.

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