Por Giovanni Romão

>>> Em entrevista à imprensa, irmão de Vito Ardito Lerário critica a CEI aberta para apurar as denúncias de horas extras que teriam sido praticadas de maneira irregular e confirma: base de apoio ao prefeito está enfraquecida

janio

Duas semanas depois de ouvir o presidente do Legislativo, Ricardo Piorino (PDT), e o líder do PSDB na Câmara, Roderley Miotto, que criticaram a atual administração municipal conduzida pelo prefeito Vito Ardito Lerário, o blog “Papo Sem Censura” conversou com Jânio Ardito Lerário (PSDB) na noite desta segunda-feira, dia 2 de setembro.

Claramente, o prefeito tem perdido apoio da Câmara. Piorino e Roderley têm votado contra projetos do executivo, acompanhando os votos da oposição, composta pelos professores Osvaldo e Eric, Magrão, Marco Aurélio Villardi e Felipe César – este, o líder do grupo. Com isso, Vito conta hoje apenas com o apoio incondicional de Jânio, Martim César, Toninho da Farmácia e José Carlos Gomes “Cal”, que na sessão desta segunda também criticou as dificuldades para conseguir falar com os secretários e assessores do poder executivo.

Em entrevista à imprensa, Jânio falou sobre o momento. Criticou a abertura da CEI que visa a apurar as possíveis práticas indevidas de cobranças de horas extras, confirmou que a base de apoio do prefeito está enfraquecida e criticou alguns aliados de campanha.  “Quem subiu no caminhão e se elegeu, na contagem dos votos do grupo, eu acho que realmente não deveria estar abandonando o barco desta forma”, destacou o tucano.

Abaixo, leia a entrevista na íntegra:

Aline Bernardes (Rádio Ótima FM): Com relação a CEI, que foi criada para apurar possíveis horas extras pagas a servidores municipais: o senhor, como vereador da base, é contra ou a favor à abertura da CEI?

Jânio Ardito: A abertura da CEI?! Eu sou completamente contra. Eu gostaria, primeiro, de investigar se foi pago. Abrir uma CEI [para apurar] aquilo que não foi usado dinheiro público; para que fazer CEI? Como eu sou da base, e outros são da base, a coisa mais simples e correta é, através de um requerimento ou uma visita ao secretário da Administração, Edson, “seu Edson, foi paga a hora extra assim, assim?”. [A resposta sendo] não. “Mas o que está acontecendo então?”. [A resposta sendo] “Foi algum servidor que quis burlar e quis receber indevidamente”. [então se questionaria]: “vocês estão apurando devidamente quem é?”. [a resposta sendo] “estamos”. Então nós vamos aguardar a resposta  de cinco a dez dias. Mas abrir a CEI, logo de cara, pois chegou de um blog, dizendo que “a farra das horas extras”, e eu sabendo depois disso que meu irmão, o prefeito, está há dois ou três meses com uma circular dizendo: “não paga aqui. Tem muita hora na saúde…”, sei lá, olhando em todos os departamentos, tendo o pé da situação na mão dele, para que vou abrir CEI? Então, agora, é o contrário. Se a Câmara abriu uma CEI, e tem o poder investigativo, e eu já participei de muitas, é lógico que tem que acabar aqui para depois liberar [o pagamento das horas extras]. Não para o prefeito pagar para todos os funcionários, mas ele quer pagar para a parte do esporte. Mas para isso, a CEI tem que acabar, para falar assim: “está autorizado. Pode pagar pois realmente não achamos nada”. É um favor que eles [vereadores] estão fazendo ao abri a CEI? Tá bom, então ajuda. Mostra onde está errado. Rápido. Não tem muita coisa para fazer. Pensa bem, não pagou [as horas extras]. Assim como o blog falou, “a pessoa que estava aqui, recebendo hora extra lá”. Já vê, chama a pessoa aqui: “o senhor estava? Não estava…”. Pronto, está resolvido.

Aline Bernardes (Rádio Ótima FM): O que os vereadores alegaram é que o prefeito pode fazer o pagamento das horas extras mesmo com a abertura da CEI. O senhor se pronunciou que, se o prefeito faz isso, pode ser cobrado – até mesmo cassado numa outra investigação. O prefeito então não vai fazer pagamento enquanto não for concluída a investigação?

Jânio Ardito: Eu se fosse o prefeito não pagaria nessas circunstâncias. Do esporte no caso. No resto, na própria circular que ele soltou, em serviços essenciais pode ser pago; lógico, dentro de uma regra de até tantas horas – não pode passar de 150, 180 horas – dentro do que ele esta regulando, vendo, com toda essa coisa administrativa, e não é de hoje. Há dois ou três meses, como falei. Agora, com a CEI do esporte, é melhor ele não pagar. Você avisa o prefeito, “olha teve um erro aí”, e ele vai entrar nessa? Por mais que ele examine lá, a Câmara tem o dever de fiscalizar, pode ajudá-lo a ver: tem o erro ou não tem erro. Por que eles não correm com a CEI? Pois eles querem estender isso, deixar essa polêmica. Não é o Vito jogando a população contra a Câmara. É a Câmara tomando uma atitude muito rápida. Oito meses de governo e uma CEI aberta. E aqui tá assim: uma formiga, “não, nossa, aconteceu…” Vai ver não pagou também. Já teve outras situações aqui, que queriam abrir CEI. Foi ver: pagou?! Não! Não abriram [uma CEI]. Agora, as horas extras, [abre a CEI] por que veio no blog? Sabe, precisa ter um pouco mais de base, mais fundamentado para se abrir uma CEI. Nós quando víamos no passado, EC França, firma fantasma, fomos atrás, fizemos delegações, tiramos foto: uma coisa mais pesada. Não que as horas extras não sejam. Qualquer centavo de dinheiro público tem que ser respeitado, mas como não foi pago, eu acho que não tem razão para ter uma CEI em uma coisa que não foi paga. Agora, já que abriu: investigue! Veja o que está errado e fale pra mim: “olha, ta errado aqui” ou “tá certo, pode pagar”.

Giovanni Romão (Papo sem censura): O caso do servidor que teria recebido hora extra acendeu um sinal de alerta. Em agosto não foram pagas as horas extras. E de janeiro até agosto, será que não tem que ser investigado para ver se não tinha nenhuma irregularidade?

Jânio Ardito: É um sinal de alerta, sim. E acredito que a administração fará força para investigar para trás o que aconteceu. Não só o de agora. Vem de uma outra administração. A própria circular fala que foram reduzidas as horas extras devido ao abuso que existia no outro governo. Agora, você sabe: são quatro mil pessoas. Uma lá no meio quer dar um nozinho. Como faz o prefeito para tomar conta disso? Precisa ter uma equipe de secretários atenta a tudo isso. Então você imagine a situação do prefeito, ter na mesa a relação de horas extras de dois ou três meses para achar se é muito ou pouco. Isso é um secretário quem tem que ver. Um bom secretário. Não o prefeito falar se pagou ou não. Realmente pode ser que tenha existido [horas extras indevidas] desde janeiro? É um alerta? É um alerta! Então, quando o Vito fala que vai ter que ouvir todos os secretário e servidores para descobrir se teve lá para trás, o Piorino fala “não”. Ué, vai ter que ouvir mesmo. Principalmente no esporte, que é aonde foi pego [o caso]. Nos outros [departamentos]? Ao menos não tivemos indícios de nada. Então, daqui para frente, há dois meses, já está bem controlado, alertou todo mundo da secretaria. Mas, no caso do esporte, se teve agora, e se teve para trás, em outro mês? Abre a sindicância; vê, já pagou? Se pagou, desconta. Se teve alguma irregularidade, desconta. Agora, não precisa abrir a CEI. Chama aqui as pessoas. Eles [vereadores] sabem quem é, e o blog falou, “olha, é o ‘João’”. Chama a pessoa: “olha, você estava aqui ou não estava?”. [Se a resposta for], “não, não estava”. [Então você indaga]: “como você quis receber indevidamente?”. [Vai ao prefeito]: “Senhor prefeito, favor tomar atitude administrativa em cima do funcionário tal, tal, tal…” Pronto! Agora, não mau uso do dinheiro público, está gastando, a farra das horas extras. Que farra? Farra é pelo funcionário fazer. Não é o prefeito falando: “faça horas extras que pago pra vocês”. É o contrário: é o Vito querendo segurar o gasto.

Giovanni Romão (Papo sem censura): Agora uma pergunta de ordem política. O senhor colocou a questão do palanque, falando dos vereadores que subiram e ajudaram a eleger o prefeito. Justamente na sessão que abriu a CEI, foi uma sessão na qual o senhor não esteve presente e foi um momento em que, inclusive o líder do PSDB na Câmara, vereador Roderley Miotto, se colocou contrário ao prefeito, fazendo duras críticas à administração. Você acha que a base do prefeito está traindo a confiança do prefeito?

Jânio Ardito: Eu acho. Acho, sim. Por que temos muito pouco tempo de mandato do Vito – são oito meses. E a base, realmente, o Roderley sendo o líder do prefeito na Câmara, ele pode criticar, lógico, falar “olha, não estou sendo atendido”. Agora mesmo um munícipe pediu um favor, uma máquina para fazer um serviço, que faz tempo que estou pedindo inclusive. Então, amanhã eu posso chegar aqui, numa sessão, e falar, “poxa prefeito, você não fez…”. Tá certo. Concordo. Mas, o líder do prefeito, o Piorino [presidente do legislativo] também, que foi tão combativo no caminhão. Fez o palanque junto com a gente. É muito cedo para se abrir uma CEI e querer brigar com o prefeito. É muito cedo. Espera. “Ah, mas não resolveu isso pra mim ou aquilo…”. Depende do que você está pedindo. O Vito está se reorganizando, fazendo as reuniões de bairro, sabendo o que o pessoal quer que se faça como obras prioritárias. Então acho cedo. Quem subiu no caminhão e se elegeu, na contagem dos votos do grupo, eu acho que realmente não deveria estar abandonando o barco desta forma. Acho que deveria conversar mais. “Ah, mas agora ele não quer conversar mais comigo”. E daí fica: quem falou primeiro? Quem existia primeiro: o ovo ou a galinha? Não é isso. Houve uma declaração nos jornais, de que ele [Piorino] não queria o Clebber [Bianchi – novo secretário de Esporte]. Mas você não pode chegar: “eu não quero o Clebber!”. Na administração dele [Piorino] aqui, colocou quem ele quis. Eu, quando fui presidente, coloquei quem eu quis. Nenhum vereador chegou em mim: “você não vai botar esse secretário de Finanças ou aquele”.  “Prefeito, você quer colocar o Clebber?”. Ele [Piorino] e o prefeito. “Talvez eu não goste do trabalho dele. Preferiria que o senhor colocasse o ‘João’. Mas, já que o senhor colocou [o Clebber], vamos dar dois meses; e vou começar a bater.” Mas você não pode tolher o prefeito de colocar alguém que é de confiança dele. Eu acho que no esporte você não precisa ter técnicos, mas sim pessoas administrativas. Assim como na saúde você não precisa ser médico para tomar conta de tudo. Precisa ser uma pessoa administrativa. Você precisa de técnicos na engenharia, no jurídico… Você tem que ter administrativo em tudo. Saber o porquê está gastando dez bolas. Por quanto está comprando uma camiseta que custa R$ 20 e está pagando R$ 30. Por que gastou tanto com alimentação. A parte de profissionais, lógico que se puder ser do ramo, melhor. Mas se não, toca do mesmo jeito. Tem muitos administradores hospitalares ai que nem médicos são; e tocam hospitais enormes. E nem médicos são. Eu encaro assim: não precisa ser esportistas. As pessoas que trabalham no esporte têm nível superior completo. A base é bem formada. Então eles vão dar para quem está tomando conta, pra você, pra mim, se eu for lá administrar o esporte. Eu vou lá ué: “Qual é a ideia de vocês? O que querem fazer?”. Eu quero esporte na rua, esporte para o povo, para o pessoal do chinelo, para o pessoal do basquete… Vocês, que são os técnicos, vejam como fazer isso. Eu não sou nutricionista e tenho uma cozinha de comida congelada. Eu quero desenvolver o produto tal: “por favor, desenvolva pra mim”. Qual é a forma, como iremos proceder, o que vamos comprar… O esporte é a mesma coisa. Não pode exigir do prefeito para ele ponha no corpo de trabalho quem eu quero ou o Piorino quer. Então eu acho que essa base que foi eleita no caminhão, que veio com proposta de mudança, do bom uso do dinheiro público, tinha que ser mantida por mais um tempo. Até dar os sinais de que, não, o prefeito não está indo bem, ou está com malandragem. Daí sim vira o jogo. Mas por uma simples hora extra, que um ou dois funcionários tentaram fazer, se é que tentaram, precisa ser averiguado. Então averigue, veja; se foram esses dois, não sei como faz no sistema público, não pode mandar embora de cara, faz uma sindicância em cima e vê as penas da lei.

Natanael Guimarães (Papo sem censura): A base do prefeito está comprometida?

Jânio Ardito: Sim, está comprometida. Você viu hoje. Um projeto do executivo, do Conselho de Educação, que vem lá do da prefeitura, com estudo. Não é nem do prefeito. A secretária de Educação mandou: adiaram, adiaram, adiaram… Chegou agora, Roderley votou contra. Marcão (Marco Aurélio) não era nosso [da base] mesmo. Mas na outra, no empate para adiar, o Piorino votou favorável ao adiamento. Ele e o Roderley.

Giovanni Romão (Papo sem Censura): Isso comprava que está comprometida a relação…

Jânio Ardito: Lógico que está comprometida. Não é pelo que se diz ou que fala. É na votação que você vê. “Ué, por que o Roderley votou contra o projeto do prefeito?”. O prefeito não bateu nele. Não falou nada. Votou contra por quê? Quer que o prefeito brigue com ele?

Giovanni Romão (Papo sem Censura): Se até o líder do partido está contra o prefeito, como reverter essa situação?

Jânio Ardito: Não sei. O Vito não fez nada contra ninguém. Não está trocando os pés pelas mãos. Está começando a se organizar. Se você for nos bairros, nas reuniões, estamos indo muito bem. O Roderley fez um requerimento outro dia sobre o asfalto do Parque Palmeiras, dizendo que estava fino. Eu mesmo falei pra ele: “Roderley, você faz um requerimento querendo informação sobre a grossura do asfalto do Parque?” Você já foi ver? Foi. Conhece da área? Não. Vai ao secretário de Obras, explica, vê o que está acontecendo. “Ah, mas o munícipe reclamou”. Não se faz assim. O munícipe reclamou, você deixa, vê a quantidade. Quando fizer os testes, cortar um pedaço do asfalto, se gastou bem o dinheiro público, se foi ou não feito, então você entra. Mas vai deixar concluir [a obra]? Então pega o secretário e leve na hora lá.

Aline Bernardes (Rádio Ótima FM): Muito se fala também que o prefeito está mal assessorado, que a assessoria boicota, não deixa os vereadores se aproximarem do prefeito… O que senhor analisa dessa situação?

Jânio Ardito: Eu vou falar pra você: eu venho de dois mandatos do prefeito João Ribeiro. No dia a dia a Câmara era mais tranquilo pra mim. Agora tudo vem pra cima de mim, que o prefeito não está atendendo. O Vito é muito dinâmico naquilo que faz. Ele atende demais. O João talvez não atendesse demais, então sobrava tempo para ligar para um vereador. Eu vou lá, fico esperando uma hora, uma hora e meia, duas horas…  Meus irmãos, que não são políticos, vão lá, nem entram lá. Não é um gabinete que pode chegar lá e entrar a hora que quiser. Não é igual em outros tempos, que ficavam filas e filas. Hoje cresceu, são 3.500 funcionários públicos. Tantos problemas na cidade. Tantas coisas. Acredito que em outras prefeituras não deve ter isso, que abre, vamos atender a população. E, mesmo assim, você olha na agenda dele tá lotada para daqui três anos. Então tem que estabelecer prioridade. Mas concordo: 60%. 70% do que eles falaram aqui, de dificuldades, é verdade.