Por Giovanni Romão

>>> Se há diferença entre os tradicionais caminhões “adaptados” para transportar pessoas e os atuais ônibus e metrôs da contemporaneidade... Os primeiros eram carregados de esperança

pau

“Só trazia a coragem e a cara… Viajando num pau de arara eu penei; mas aqui cheguei.” Luiz Gonzaga compôs e cantava esses trechos num retrato de tempo histórico em que o Brasil, em especial o Sul e o Sudeste, dava seus passos de “progresso”. Caminhos construídos por meio de grandes avenidas, prédios e viadutos para se vencer as “barreiras” naturais do espaço geográfico… Tempo de grandes transformações. De impactos no presente da época; e no futuro. Este, hoje, o nosso presente.

De cima, os homens vinham atrás das tais oportunidades. Vinham pendurados em paus de arara. Traziam poucos pertences – vezes nada. Mas vinham recheados de esperança, sonhos e projetos. Alguns realizaram parte do que buscavam. Tantos outros foram às margens. E todas as lutas e dores vividas à época virariam histórias no futuro. Este, hoje, o nosso presente.

Em tempos atuais, homens daqui de baixo – alguns já foram de cima – enfrentam diariamente os paus de arara dos tempos modernos – os homens de cima também já os têm. E os ditos possuem bancos – alguns estofados -, são fechados e com janelas para ventilação. Passam pelas ruas. Outros pelos buracos da terra – sobre trilhos. São informatizados, com vozes radiofônicas. As portas se abrem e se fecham num prazo de tempo curto, pré-programado – definido com base na velocidade determinada pelo capital. E como é veloz…

Na estação da Paulista, em horário de pico, a porta se fecha – programada. Quem ainda ia descer ficou dentro. Quem queria entrar, fora. Também era assim nas longas distâncias de estradas dos que vinham de cima. Quantos, desgastados pelo cansaço e pela fome, não ficaram no meio do caminho e sem uma nova estação pela frente ou uma segunda unidade do trem para seguir seus passos? – a chance era única. Trilhos sem volta.

Havia aperto. Hoje há. Havia lutas. Hoje há. Havia fome pela falta de dinheiro. Hoje há – e também pela falta de tempo. Havia suor. Hoje há. Havia preocupações. Hoje há. Havia desconhecimento do futuro. Hoje há. Havia uma realidade nua e crua da precarização. Hoje há maquiagens. Havia crença num futuro melhor. Hoje há… Cansaço!

São contextos e situações distintas em sua grandeza histórica. Porém, uniformes na desumanidade.