>>> Em bate-papo para o blog “Papo sem Censura”, socióloga da Universidade de Taubaté faz uma avaliação sobre as manifestações que marcam o Brasil: “Há 15 dias, os jovens eram taxados de individualistas. Hoje eles estão pensando o País.”

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“Giovanni, eu posso te atender, mas apenas mais no fim da noite, pois vou ao protesto em São José dos Campos, para acompanhar esse movimento”. Dessa forma a socióloga Nilde Balcão, da Unitau, respondeu ao convite do blog “Papo Sem Censura” para uma entrevista sobre as manifestações que estão marcando o Brasil nos últimos dias.

No bate-papo de cerca de uma hora, ela discorre sobre os efeitos desses protestos e o rompimento dos movimentos com a mídia e com tradicionais partidos. “Sou favorável à liberdade de expressão e os partidos tem esse direto (de se expressar). Mas há hoje um descredito nas instituições, entre elas as legendas partidárias”, avalia Nilde. Sobre os efeitos desses movimentos no resultado das eleições de 2014, a socióloga afirma: “Haverá algum reflexo, mas ainda é cedo para compreender quem capitalizará melhor. Ao que tudo indica, a polarização entre PT e PSDB sai enfraquecida.”

Papo sem Censura: Como você acompanhou o início de toda essa mobilização?
Nilde Balcão: Havia um movimento nas grandes cidades que se concentrava na questão do aumento das tarifas; e outras questões, que têm gerado insatisfação, como os casos de corrupção, acabaram entrando nessa pauta. O que surpreende, apenas, é a rapidez como tudo cresceu.

Papo sem Censura: E o Estado, representado por meio de suas forças policiais, por exemplo, como tem se comportado?
Nilde Balcão: Alguns atos de violência da polícia que vêm sendo praticados há alguns anos, entre os quais a invasão da USP, o esvaziamento da Cracolândia e também do Pinheirinho, onde haviam crianças e jovens, contribuíram para aumentar a revolta da sociedade civil. Essa forma de tratar todos como bandidos. Os manifestos mesmo vêm para provar que a sociedade é plural, com pessoas diversificadas…

Papo sem Censura: … então o estopim de tudo não foi apenas o aumento nas tarifas?
Nilde Balcão: Não, é uma série de fatores. Tem a corrupção, o trânsito, até mesmo outras questões do transporte público, como superlotação e demora em passar um ônibus. Tem saúde, educação… E tudo isso no meio de uma Copa (das Confederações). Isso tudo se juntou e esse movimento de insatisfação já vinha sendo manifestado nas redes sociais. Ele ganhou as ruas.

Papo sem Censura: A mídia parece em crise com essa sociedade que se manifesta, correto?
Nilde Balcão: No princípio (dos protestos), a mídia foi conivente com a visão do Estado, de que não passava de um grito da minoria e de casos de vandalismo. As manifestações são mais de ordem sentimental do que propriamente racional. Há uma mudança acontecendo na sociedade e a mídia não consegue acompanhar esse processo.

Papo sem Censura: Fiz um artigo no último mês dizendo que a sociedade parecia capaz de debater, mas ainda não conseguia estabelecer a pauta do que deve ser discutido – isso ainda era papel da mídia e da classe política. Isso mudou?
Nilde Balcão: Sim, a sociedade está conseguindo antecipar a pauta. E isso tudo mudou muito rapidamente, num prazo curto de tempo. As pessoas estão relacionando e questionando os recursos aplicados nas obras da Copa com questões ligadas a políticas públicas e sociais. A sociedade antecipou a pauta e começa a empurrar os poderes legislativo e executivo a desempenhar suas funções.

Papo sem Censura: E como tem observado esse distanciamento, ou mesmo rompimento, da sociedade com os partidos políticos?
Nilde Balcão: Sou favorável à liberdade de expressão e os partidos tem esse direto (de se expressar). Mas há hoje um descredito nas instituições, entre elas as legendas partidárias. Os movimentos das ruas são da sociedade civil organizada, como associações, organizações, grupos estudantis. Têm muitos jovens, adolescentes mesmo, dentro dessas manifestações – um grupo que não crê nessas instituições partidárias. O debate dos assuntos começa dentro da sala de aula… Nas redes sociais.

Papo sem Censura: Política sendo debatida diariamente pela juventude? Dentro da sala de aula? Isso é um pouco novo, não?
Nilde Balcão: Há 15 dias, os jovens eram taxados de individualistas. Hoje eles estão pensando o País. Hoje entro em sala de aula e os assuntos estão lá, diariamente. Essas manifestações, inclusive, têm levantado uma questão muito interessante, que é a valorização do funcionário público. A sociedade não vê mais o professor como um dos problemas na questão da educação; em cartazes, as pessoas cobram que o Neymar não pode ganhar mais do que um professor. As pessoas estavam caladas, no máximo criticavam nas redes sociais; e vieram às ruas.

Papo sem Censura: É possível imaginar quando essas manifestações vão terminar? Ou melhor, elas vão parar?
Nilde Balcão: Vai acontecer um esvaziamento natural ou vai acontecer uma concentração mais específica da pauta de reivindicação, como a questão da PEC 37. Agora é realmente entender: quais serão os próximos caminhos? Ainda é um movimento novo, que já acontece em outros lugares do mundo, como Roma, Paris e Madri, mas ainda é novo até mesmo por lá, onde isso já vem há alguns anos. Ainda é algo muito recente.

Papo sem Censura: Tudo isso vai ter impacto nas urnas, em 2014?
Nilde Balcão: Haverá algum reflexo, mas ainda é cedo para compreender quem capitalizará. Ao que tudo indica, a polarização entre PT e PSDB sai enfraquecida. Mas ainda está tudo em aberto.

Papo sem Censura: … ou seja, os tradicionais partido terão que se mexer?!
Nilde Balcão: Terão que repensar posturas, como está acontecendo com a volta atrás nos preços das tarifas. Os próprios partidos estão divididos entre si. Mas eu ainda acredito que eles tentarão reverter esse quadro por meio do marketing, do fortalecimento de suas imagens, e não entrando na discussão efetiva das questões que estão sendo colocadas pela sociedade. E vão contar com o apoio da mídia.

Papo sem Censura: Para fechar, já que estamos em tempo de Copa, esse evento também motivou as manifestações neste momento?
Nilde Balcão: Sem dúvida é uma vitrine; inclusive lá fora, sendo visto como um país que se manifesta. Temos uma sociedade que resolveu se manifestar e a Copa acaba por ser um grande palco.