>>> Crise envolvendo a Coreia do Norte e países “inimigos” e tradicionais aliados do governo de Kim, como a China, ganha contornos delicados e o aparente “jogo de cena” do Norte abre lacunas para a eclosão de um conflito armado
 
 
 
Uma crise iniciada após o fim da segunda guerra mundial, mais de meio século depois volta a ter contornos de um cenário de pré-guerra. Esse é o clima que marca a escalada de tensões entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. Ao longo dos anos, desde o armistício de 1953, nunca a situação foi tão delicada como agora, mesmo com todos os descumprimentos por parte do Norte em acabar com o desenvolvimento clandestino de armas nucleares.
 
Apoiado pela Rússia após a Segunda Guerra e ao longo da Guerra Fria, o Norte tinha como principal aliado nos tempos recentes o governo de Pequim. No entanto, desde fevereiro deste ano, quando a ONU impôs novas sanções ao país norte-coreano, contando inclusive com o apoio da China, o pequeno país comunista encontra-se totalmente isolado.
 
Acuado, o norte tinha dois caminhos distintos a seguir: o do diálogo ou a ameaça sem precedentes. A escolha pela segunda opção “bate” com as características do jovem e inconsequente líder do norte, Kim Jong-un. Filho do ex-comandante Kim Jong-il, que morreu em 2011, Jong-un assumiu o posto logo após a morte do pai, dando sequência a dinastia de mais de seis décadas dos Kim, iniciada com o avô do atual líder, Kim Il-sung.
 
Com menos de 30 anos, Jong-un parece o mais “atentado” do clã Kim. A postura ousada do norte começou ainda sob a batuta de Jong-il, em 2006, com os primeiros testes “oficiais” de armamentos nucleares – marcando as primeiras medidas de sanções do Conselho de Segurança da ONU, que se fortaleceriam nos dois testes nucleares seguintes, realizados em 2009 e em fevereiro deste ano – este sob a regência de Jong-un.
 
Com as investidas do Norte contra o Sul, os líderes do “lado democrático” das coreias também resolveram endurecer. O ex-presidente Lee Myung-bak adotou medidas de sanções econômicas em 2008, enquanto a atual presidenta Park Geun-hye (eleita em 2012), filha de um anticomunista, já anunciou tolerância zero ao norte.
 
Isolado, o governo Pyongyang não parece aberto ao diálogo. Depois de ameaçar ataques ao Sul, ao Havaí, a Guam, aos EUA, direcionaram seu foco ao Japão – medida que motivou o embarque do secretário de Estado americano, John Kerry, ao campo do ex-inimigo de Guerra. Por lá, Kerry confirmou o apoio dos EUA aos japoneses. Uma ofensiva internacional em busca da reabertura do diálogo, liderada pelos EUA e que conta até com o apoio da China, deve ganhar força esta semana. E o recado é: a paralisação dos testes nucleares no Norte.
 
Jong-un talvez nem queira guerrear. Mas também está longe de se abrir ao diálogo. Forçou o fechamento do único elo oficial com o Sul, o parque industrial de Kaesong, ao mesmo tempo em que posicionou alguns lançadores de mísseis em condições de disparo. Ninguém sabe ao certo o poder bélico de Jung-un e nem quais são as suas reais intenções. Porém, em um clima de pré-guerra como o que está, qualquer movimento em falso de um dos envolvidos pode resultar em consequências nada pacíficas.