>>> Diferentemente de Alckmin e Serra, que tiveram no mínimo dois terços do PSDB em 2002, 2006 e 2010, o senador mineiro enfrenta duas correntes contrárias à sua candidatura. E cada uma com o seu fator motivador…
 
 
 
Enquanto Dilma Rousseff (PT) inicia suas articulações com foco em 2014, e faz o uso claro da máquina pública para isso, um de seus principais rivais para o próximo ano segue batendo cabeça dentro do próprio partido. Ainda sem muitos caminhos para unificar o PSDB, Aécio Neves vê crescer as articulações do PSB Eduardo Campos nos meios político e empresarial (inclusive dentro do tucanato), e o fortalecimento de Marina Silva (sem partido) junto aos jovens, principalmente via redes sociais.
 
Um dos primeiros indícios de que Aécio precisa inflar sua candidatura à presidência foi a pesquisa DataFolha, divulgada na última semana, que mostrou Dilma na frente, com 58% das intenções de voto, seguida de Marina Silva, 16%. O mineiro aparece em terceiro, com 10%, contra 4% de Eduardo Campos. Os números vêm na sequência de medidas populares da presidenta, como o corte na conta de luz e a redução do preço da cesta-básica. Também conta positivamente para a petista sua presença na posse do papa Francisco.
 
Dilma percorre o Brasil e o mundo. Eduardo e Marina fortalecem suas imagens internamente. Aécio também faz isso, mas divide energias ao tentar uma união interna de seu próprio partido. O blog “Papo sem Censura” fez uma leitura dos cenários nas últimas três eleições presidenciais, com foco no PSDB, e detectou que os desafios de Aécio são maiores do que parecem.
 
Veja:
 
2002 – Um dos principais ministros da gestão FHC, José Serra foi o candidato natural do partido naquele ano. Momento em que ainda não existia internamente uma corrente “alckmista”. Nem mesmo uma corrente “serrista”. Era ainda um PSDB unido, com foco na manutenção do poder. A conjuntura política do país, no entanto, projetava para uma mudança mais drástica. De ideologia. Fatores que contribuíram para a primeira vitória de Lula. Era o início da fragmentação do tucanato.
2006 – Após assumir o governo de São Paulo em 2001, depois do falecimento de Mário Covas, Geraldo Alckmin foi eleito ao cargo em 2002. Os anos como vice de Covas e seu primeiro mandato completo como governador foram suficientes para Alckmin construir suas bases, fazer aliados, iniciando a corrente “alckmista” dentro do PSDB, enquanto Serra costurava suas estruturas ao ser eleito prefeito de São Paulo em 2004. Fortalecido dentro do partido, Alckmin forçou sua candidatura à presidência em 2006. Era o primeiro grande racha dentro do PSDB, uma vez que Serra se via novamente como o candidato natural. Alckmin contou com o apoio da corrente “alckmista” e de uma ala independente dentro do partido, liderada por FHC, que defendia seu nome. Do outro lado ficou, isolada, a ala “serrista”. Alckmin saiu derrotado na reeleição de Lula. E Serra foi eleito governador de São Paulo.
2010 – Derrotado na eleição municipal da capital paulista em 2008, quando ficou fora do segundo turno disputado por Gilberto Kassab e Marta Suplicy, Geraldo nem cogitou ser candidato à presidência em 2010, quando saiu candidato ao governo de SP. Mas também não se entregou de corpo e alma à candidatura de Serra ao Planalto. Alckmin e sua corrente foram apoiadores formais, mas estiveram longe de serem militantes. Serra contou com o apoio da ala “serrista” e da ala independente pró-Serra, agora encabeçada por FHC. Serra saiu derrotado por Dilma, enquanto Geraldo venceu para o governo de SP.
2014 – Nesse tempo todo, Aécio Neves manteve-se com o foco em Minas Gerais, onde governou de 2002 a 2010. Em 2010, quando apoiou Serra, saiu candidato ao Senado e venceu. Sabia que se Serra saísse das urnas derrotado em 2010, seria ele, Aécio, o candidato natural em 2014. Porém, Aécio enfrenta resistências das correntes “serrista” e “alckmista”, e conta apenas com o apoio da ala “pró-Aécio”, liderada por FHC. Diferentemente de Serra, que teve apoio de quase todo o PSDB em 2002 e de dois terços do partido em 2010, mesmo volume de apoio que Alckmin teve em 2006, Aécio conta com apenas um terço do tucanato.
Entenda os motivos particulares que colocam as correntes “serristas” e “alckmistas” contra a candidatura de Aécio:
 
Corrente “serrista”:Aos 71 anos, Serra sabe que seu tempo para ser presidente está ficando curto – devido aos desgastes físico e mental que o cargo acarreta, com as longas viagens e os  extensos turnos de trabalho. Derrotado na disputa na cidade de São Paulo em 2012, Serra sabe que não terá espaço para disputar o governo de SP, já que Alckmin é o candidato natural à reeleição. Por isso, Serra quer mais uma chance de buscar o planalto. Se passar de 2014, dificilmente terá fôlego político, ainda mais sem cargo, para ser candidato em 2018.
 
Corrente “alckmista”:Depois de perder a disputa presidencial em 2006 e voltar ao governo de SP em 2010, Alckmin não matou dentro de si o sonho de ser presidente. Está apenas esperando a hora certa. É aí que a candidatura de Aécio em 2014 representa um risco para os seus projetos. Se sair derrotado das urnas no próximo ano (situação mais provável hoje), Aécio irá insistir em uma nova candidatura em 2018, alegando estar mais conhecido e preparado. Vencendo (hoje pouco provável), será o candidato natural à reeleição em 2018. As duas situações complicam os planos de Alckmin, que, se reeleito em 2014 ao governo de SP, encerra esse ciclo em 2018. A primeira situação (no caso de derrota de Aécio) é ainda pior para Alckmin, pois não há como saber até quando o mineiro tentaria sustentar uma candidatura. Vencendo, Aécio teria o prazo máximo na presidência até 2022.
 
Esse cenário até seria interessante para Alckmin, que poderia sair a senador em 2018 e projetar sua candidatura ao Planalto em 2022. Porém, como um triunfo de Aécio é pouco provável em 2014, Alckmin prefere não correr riscos de ter seu sonho presidencial adiado para, sabe-se lá, 2026, 2030… Por isso, joga contra o mineiro.
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