Há duas semanas que o pente que deixo em meu quarto não consegue dar o mínimo de jeito no meu cabelo. Portanto, decidi cortar. O primeiro passo foi tentar uma solução caseira. A agenda lotada de mamãe me lançou à barbearia – “a mais antiga da cidade”.
 
O ambiente é típico de barbearias antigas, que podemos ver em filmes e séries de época na TV. O espaço retangular é preenchido com móveis rústicos e poltronas robustas, que aparentam pesar toneladas. Na parede, em frente a cada poltrona de atendimento, quadrinhos trazem a representação de cada barbeiro em charges de linhas suaves e um colorido sutil, que contrasta com o tom bucólico do local.
 
Da entrada para os fundos, temos o Marco, o Tião – que me atendeu – e o Nilo. Há ainda mais dois postos de corte, mas os atendentes são novos no local e não têm suas caricaturas. No meio da parede uma plaquinha descreve: cabelo – 13 reais / barba – 13 reais. Lembro-me que há cerca de quatro anos esses valores eram coisa de R$ 8,00. É a inflação.
 
Fui ao local por volta do meio dia, quando o fluxo de pessoas cabeludas e com pelos nas caras é menor. – Marco, bom dia. Média de tempo para o atendimento? – Coisa de 30 minutos, responde. Resolvo aguardar. Meu olhar percorre as cadeiras de espera, que ficam atrás das poltronas de corte. É uma posição de camarote, pois pelos espelhos podemos ver a cara das pessoas tirando aquele profundo cochilo ao terem suas cabeças afagadas pelas máquinas, pentes e tesouras. E aquela “borrifadinha” de água? Em tempos de calor, então, é o paraíso…
 
Sento-me em uma das cadeiras e logo recorro ao celular. Aciono o 3G, troco meia dúzia de mensagens, e paro com a voz que vem da direita: “Saindo daqui vou ao fórum”. Meu olhar, agora, busca uma mulher sentada ao lado. Ela espera o filho, que está na poltrona na nossa diagonal direita. Percebo que ela fala comigo. Meu virar de cabeça é o suficiente para ela dar sequência. “Ele quebrou um vidro na escola, do laboratório de química, e agora eles querem que eu pague”. Reclama, indignada.
 
“Eu sou professora também, mas de perfil antigo, que quer ver seu aluno aprendendo”. Explica. E assim os assuntos vão se encaixando, sem nem mesmo terem ligação. Afinal, ela quer apenas falar. Desabafar. Está nervosa. Ouço mais algumas passagens cotidianas até que ela diminui o tom de voz, se aproxima de mim e diz: “Eu bato muito de frente com meu filho, sabe?! Ele é de adoção.” – Ele é o que? – Questiono eu, por não ter entendido. “Ele é adotivo, mas não sabe…”
 
Meu pensamento por segundos parecia mergulhado na tentativa de entender a relação de mãe e filho dentro do que, precipitadamente, avaliei como uma situação sustentada sobre uma mentira. Ao mesmo tempo, olhei para o menino sentado, novamente, de forma precipitada, com sentimento de dó. E a senhora me trouxe de volta ao mundo: “Já falaram para ele que ele é adotivo. Ele me questionou. E eu disse: nunca se esqueça que você é filho de Deus, como todos nós.”
 
Mesmo sendo a adoção um gesto nobre, humano, essa mãe tem um medo da verdade clara, mesmo que não faça uso da mentira para esconder nada – talvez como somos muitos de nós em situações diversas.
 
Mãe e filho foram embora. Em 30 minutos tive meu cabelo cortado. E da barbearia sai com a certeza ainda maior de que dessa vida eu não passo sem adotar uma criança. Um gesto essencialmente puro, com medos, receios, erros e acertos… Portanto, humano.