>>> Blog “Papo sem Censura” lança nova série de entrevistas com figuras ligadas ao mundo do samba. No primeiro bate-papo, o “ovelha Verde” Gabriel Teixeira fala sobre suas raízes, sua trajetória no mundo do samba e pagode e suas paixões pelo Botafogo, pelas mulheres e pela Mocidade. “Compor é inspiração… É mesmo uma voz misteriosa que vem no nosso ouvido e dita aquilo que nosso coração quer dizer”, diz


 

O jeito marrento esconde o cara brincalhão e extrovertido. É isso que garante Gabriel Teixeira sobre sua personalidade. Nascido ao lado da Mangueira, apaixonado pelo Botafogo e pela Mocidade Independente de Padre Miguel, o “ovelha verde” – como costuma se descrever – compõe, canta e toca… Escreve de “sambas de meio de ano” a sambas enredos, inclusive foi um dos autores do samba que a Mocidade levou para a Sapucaí em 2012, quando cantou Portinari.
 
Em uma entrevista ao blog “Papo Sem Censura”, na estreia da séria “Papo de Bamba”, Gabriel conta detalhes de sua vida no samba e destaca as pessoas que conheceu ao longo desse caminho. Atualmente ele cuida de seu primeiro trabalho solo e, como um artista independente, aposta na internet como um dos principais caminhos para difundir seu trabalho.
 
Confira esse bate-papo:
Papo Sem Censura: O samba entrou na sua vida ou você entrou no mundo do samba?

Gabriel Teixeira: Sou nascido e criado no bairro do Riachuelo, ao lado da Mangueira, e minha família materna sempre foi muito ligada ao carnaval e à Mangueira. Daí a paixão pelo carnaval. O samba chegou na minha vida, principalmente, através do rádio, que a Márcia – que trabalha na minha casa há 20 anos e é casada com um membro da tradicional família salgueirense “Calça Larga” –, ouvia diariamente na minha casa. Fui criando uma identificação muito grande com aquilo que ouvia – o samba e pagode.

 
PSC: Antes da carreira solo, você teve uma passagem pelo grupo Samba Urbano. Foi uma boa fase na sua vida? O que aprendeu por lá?
GT: Foi uma fase maravilhosa, tive oportunidade de tocar e cantar com monstros sagrados do samba, como o Nelson Sargento, Wilson Moreira, Diogo Nogueira e Fundo de Quintal… Sem falar que convivi e fiz grande amizade com músicos espetaculares e maravilhosas pessoas que são Marcelle Motta, Gabriel de Aquino, Daniel Aranha e Felippe Santos. Vale também citar que foi através do grupo que conheci Lygia Santos – avó do Felippe, pesquisadora, filha de Donga e jurada do “Estandarte de Ouro” –, a quem tenho até hoje como uma espécie de “conselheira”.
 
PSC: Além de cantor, de tocar vários instrumentos, você também compõe. Compor é inspiração ou técnica?
GT: Compor é inspiração. Não existe técnica. É mesmo uma voz misteriosa que vem no nosso ouvido e dita aquilo que nosso coração quer dizer. Compor samba-enredo é um pouco diferente, há uma sinopse que tem de ser respeitada, é como resumir “com suas próprias palavras” o texto do carnavalesco em forma de samba. Mas os chamados “sambas de meio de ano” vem assim, como um sopro, pelo menos comigo sempre foi assim.
 
PSC: Já que você tocou na questão do samba enredo. Você ajudou a levar “poesia em pincel” para a Sapucaí em 2012, no enredo da Mocidade sobre Portinari. Fale mais sobre essas particularidades que diferenciam compor os “sambas de meio de ano” e samba enredo.

GT: É bem diferente. Acho compor samba enredo mais fácil. Já há um tema definido, palavras e expressões que você pode tirar da sinopse. Na parte melódica a gente já sabe mais ou menos o que funciona e o que não funciona. É como cozinhar, com receita e sem receita… “Samba de meio de ano” são infinitas possibilidades, caminhos poéticos e melódicos, temas… Exige mais do talento de compositor.(Na foto, Gabriel Teixeira entre Diego Nicolau e Gustavo Soares – compositores do enredo campeã da Mocidade em 2012)
PSC: Tem um horário em que se sente melhor para compor?
GT: Sou noturno. Durmo tarde. Portanto, quase sempre, componho de madrugada. Mas talvez isso seja só coincidência por causa do meu relógio biológico. Já compus de manhã, de tarde, no ônibus, na rua… E meu celular sempre do lado pra gravar as melodias…
 
PSC: Em seu primeiro grande trabalho solo, tem a música “Me entrego” como carro-chefe. O que determina em um projeto qual será a música de trabalho?
GT: Eu costumo ouvir as pessoas que trabalham comigo. No caso de “Me Entrego” foi uma sugestão do meu produtor musical Wilson Prateado. Ele é um craque do mercado. O que ele diz, pra mim é lei. Não tenho muita vaidade em relação a isso não. Costumo ouvir quem entende melhor que eu. Meu negocio é compor e cantar (diverte-se). Mas sei que em outros casos há a opinião da gravadora, dos radialistas, etcetera… No meu caso foi assim como contei.

 
PSC: A internet se tornou uma ferramenta que, de uma forma ou de outra, facilita a vida da pirataria, devido às facilidades de download de CDs completos, DVDs, enfim… Mas, ao mesmo tempo, ajuda na difusão de artistas sem espaço na grande mídia. Como tem observado a relação internet-música?
GT: Pois é. Isso é uma questão delicada. No meu caso, que sou um artista independente, a internet só traz benefícios. É o canal mais rápido de comunicação com o público. Meu clipe já atingiu mais de 7 mil visualizações no Youtube, mesmo sem estar tocando na rádio, o que é fantástico. Mas para os artistas que dependem de vendagem de disco, é uma questão séria. Ajuda a divulgar, mas ao mesmo tempo atrapalha na vendagem de material original. É bem complicado isso…
 
PSC: E em 2014, hora de levar outra composição ao palco do carnaval?
GT: Tomara que sim. Ainda não parei pra conversar com meus parceiros sobre isso, mas acho que continuaremos na Mocidade pra, se Deus quiser, vencer essa disputa novamente.
 
PSC: E como funciona o mundo de disputa de sambas em uma escola? É difícil emplacar um samba para disputar em uma grande escola carioca?
GT: É complicado. Graças a Deus na Mocidade somos todos amigos. Os adversários se respeitam muito, é uma ala de compositores unida. É bastante difícil ganhar, sim. Demanda muito trabalho, dedicação à disputa, e dinheiro – além de um bom samba, claro. Os gastos são bem altos, com torcida, bolas, fogos, papel picado, cerveja para os amigos… E acabam sendo necessários para que se faça uma festa à altura da obra composta e da tradição da escola. E sempre há grandes compositores, com suas boas obras, e suas torcidas, e boa estrutura. E, assim, vence o melhor.
 
PSC: E sua relação com a Mocidade. É amor? Ainda sobre a verde e branco, o que achou da escola no carnaval de 2013? Foi justo o 11º lugar?
GT: Costumo dizer que sou a “Ovelha Verde” de uma família mangueirense. Quando tinha uns 8 anos de idade, ganhei uma camisa “meus dois amores” (metade Botafogo, metade Mangueira). Aí disse que meu time estava certo, mas minha escola não era aquela. A minha escola era a da Estrela (Mocidade). Todos acharam que era coisa de garoto, pois a Mocidade era a “papa-títulos” da época. Bom, até hoje não passou. Sou profissional, qualquer escola que estiver trabalhando defenderei com amor, mas o coração é Mocidade sim! O carnaval de 2013 não foi bom, né?! Fizemos nosso trabalho direitinho, com o que podíamos, e acho até que nos superamos. Não tenho imparcialidade suficiente pra te dizer se o 11º lugar foi justo ou não, mas que a caneta pesa um pouco mais pra Mocidade, pesa…
 
Papo rápido
PSC: Quem é Gabriel Teixeira no dia a dia?

GT: A cara de marrento esconde um cara bem humorado e feliz. Tem gente que me acha antipático, mas por que não me conhece. Sou meio sério a primeira vista, mas depois faço piada de tudo, brinco com tudo, não me levo muito a sério (sorri)… Sou um apaixonado pelos meus amigos, minhas mulheres e minha família.

 
PSC: Se vê morando fora do Rio de Janeiro?
GT: Sou um carioca apaixonado por São Paulo, mas não me vejo morando fora não. Talvez tendo um apartamento pra passar alguns dias, e voltar correndo pro Rio (brinca)
 
PSC: O samba afasta os males, de fato?
GT: Sem dúvida, um bom samba é entorpecente.
 
PSC: Um carnaval inesquecível?
GT: 2002, a primeira vez que fui ao sambódromo ver a Mocidade desfilar. Fiquei perplexo com tanta beleza. Não dá pra não citar 2012, com meu samba também…
 
PSC: O melhor samba enredo da história?
GT: Não dá pra eleger um. Até por que não sou um profundo conhecedor. Dos que eu vi passar na Sapucaí destaco: Tijuca 1999, Ilha 2001, Tijuca 2003, Beija-Flor 2007 e Vila, 2005 e 2013.
 
PSC: Um sambista referência?
GT: Todos os grandes baluartes do samba, que construíram os alicerces pra que a gente possa trabalhar e desfrutar desse expoente maior da nossa cultura.
 
PSC: Um samba que sonha em gravar?
GT: Oitava Cor (Luiz Carlos da Vila, Sombra e Sombrinha)
 
PSC: Tocar cavaquinho, cantar ou compor?
GT: Cantar, sem dúvida.
 
PSC: O Botafogo é para você?
GT: A certeza de que não sou normal (gargalha). Não dá pra explicar. Muito amor mesmo.
 
PSC: E Luizinho Andanças?
GT: Um cara iluminado, com uma voz impecável, que me concedeu a oportunidade de desfilar tocando o meu samba. Além de um grande amigo que fiz e guardo com muito carinho e respeito no coração. Aproveitando, gostaria também de agradecer a Igor Leal, Diego Nicolau, Gustavo Soares – todos do carro de som da Mocidade –, Anderson Canela, Luiz Guerreiro, Leonardo Bessa, Julia Alan, Diego Moura, Eduardo Moreira, Guto Smuk, Raphael Esquilo, e todos os amigos queridos que o carnaval me deu! Obrigado!