>>> Diante daqueles pés rachados e sujos, nem precisaria ser sensitivo para entender seu passado. Talvez, possa prever seu futuro. Prazer, Senhor Pé! Talvez um dia, o poder público de São Paulo também queira te conhecer

Próxima estação, República. Está sendo assim todo sábado, por volta das 8h15 da manhã, ouço o anúncio na linha vermelha do metrô da metrópole – sentido Palmeiras-Barra Funda. Na ânsia do atraso, subo as escadas rolantes degrau por degrau. Confesso já ter achado isso uma insanidade em tempos outros. Mas, não! O paulistano me ensinou que é comum aplicar movimentos físicos em uma escada rolante que, por obra do homem, tem como função evitar o esforço físico. Mas, sim, o tempo é cada vez mais curto, e não faz mais sentido ficar parado em uma escada, sendo que com esforço físico se pode subir mais rapidamente. A escada giratória (para não ser redundante) continua valendo para quem realmente necessitar.

Saindo do buraco escuro e frio, a luz do dia. Sim, 15 minutos de rodoviária do Tietê, linha azul e linha vermelha são o suficiente para nos cobrir com a sensação da noite. Desponto na praça da República. Os primeiros artistas-ambulantes preparam suas barraquinhas de vendagem – todas amarelinhas. Uma organização incomum para uma cidade que tem de comum sua desordem. Alguns passos à frente e. Pausa. Para atravessar a rua. Pronto, a desordem. Estou novamente em São Paulo.

É ali, na região da praça da República que, entre idas e vindas, “conheci” o Senhor Pé. O avistei por ali em duas oportunidades – das três últimas que estive na região. O Senhor Pé é moreno. Se tem dentes, não sei. Sempre o vi de bruços. O rapaz que, apesar de eu não ter visto os dente, aparenta ter algo entre 20 e 30 anos – prefiro manter a margem grande –, tem alguma função por ali. Nas duas vezes o vi dormindo. Talvez seja essa sua função. De cara para o chão, deixa para o céu apenas a parte traseira de seu corpo franzino coberto de roupa surrada.

Ah, e deixa também aparente as solas dos pés. Ali há sujeira. E uma casca dura. Além de ranhuras. Ranhuras que revelam profundos detalhes de seu passado. Quiçá, de seu futuro.

Prazer, Sr. Pé! O poder público de São Paulo talvez um dia também queira te conhecer.