>>> Assim como senti um misto de indignação e revolta, também não poderia cometer o mesmo erro de julgar Mirella. Apesar da postura dela não precisar de exame de “prosta” para ser comprovado o ato condenável.

Confesso que não consegui assistir até o fim o “tal” vídeo em que a jornalista  Mirella Cunha, da Band–Bahia, entrevista um rapaz que acabou de ser preso – suspeito de assalto e estupro. Alguém já ouviu falar em nó na garganta? Porém, assim como senti um misto de indignação e revolta, também não poderia cometer o mesmo erro de Mirella. Não poderia julgá-la. Apesar da postura dela não precisar de exame de “prosta” para ser comprovado o ato condenável.

Assim como Mirella tem o sobrenome Cunha, o entrevistado, o qual não tivemos nem o direito de saber o primeiro nome, também tem sua história. Qual será essa trajetória de vida? Dificilmente saberemos, pois ele faz parte do jornalismo factual do sangue. Mas que ele tem. Isso tem. Pode ter tido uma infância perfeita e ter se perdido na vida. Pode ser nascido em uma família sem estrutura e ser reflexo de uma (“des”) criação sem embasamentos morais e éticos (se é que eles existem em forma definitiva). Não. Sem dúvidas são maleáveis. Mas há sempre o limite da convivência em sociedade. Fato, estuprar e matar estão fora das atitudes aceitáveis. Agora, se ele estuprou?! Sei não…

Ele tem os dentes podres? Sim, tem. Ele tem uma mancha na bochecha esquerda? Sim, ele tem. Ele faz parte de uma classe taxada como socialmente desestruturada? Sim, ele faz. Mas isso é só. E ponto. Por que devo julgá-lo por ser um suspeito de estupro e não por cada uma das lágrimas que ele derrama em determinado momento da entrevista? Definitivamente, Mirella tem apenas um caminho alternativo para acusar “seu entrevistado” por estupro antes de ter em mãos provas palpáveis: achar um estudioso que garanta existir “estuprador por nascença”.

Mas, assim como Mirella conseguiu comportar-se de forma tão natural frente ao “estuprador de berço”, muitas pessoas tiveram capacidade de se deliciar com o comportamento da repórter. Gostaram de sua postura. Aplaudiram e gargalharam com a “próstata” que teimava para ser pronunciada. Julgaram Mirella pelo viés da heroína. Afinal, “um desgraçado desse tem que morrer”, “tem que ser humilhado mesmo”, “um estuprador não pode ser comparado a um animal”…

Atos como julgar, matar e estuprar são ações simples. O homem naturalmente as bloqueia pois sabe que será difícil encontrar respostas. Afinal, sempre haverá algo maior a quem se reportar: a consciência. Um dia ela pesa. E pode ser na primeira deitada de cabeça no travesseiro. Sim, Mirella tem travesseiro em casa. O “fulano” da reportagem não sei se teve essa oportunidade onde quer que tenha dormido. Seja para refletir seja lá o que tenha que ser refletido.