“Ceará… Ceará. Oh, Ceará”. Nada desse bunda aí? – questiona indignado, da porta do hotel, o senhor de medidas avantajadas e de dentes preenchidos apenas na arcada inferior.  “Acho que ele não tá aqui dentro não, patrão” – responde, agora em tom mais moderado, o “caçador” do Ceará. Esse cabra tá pensando que me faz de palhaço!

São onze da noite de um sábado. Um sábado, não. O dia é 28 de abril de 2012.

“Pô, Ceará, o cara tá bravo com você lá embaixo”. Ceará desse pelas apertadas escadas do muquifo em direção à rua. Ops, do Hotel. Afinal, quem sou eu para julgar a qualidade daquele estranho prédio localizado ao lado da Rodoviária do Tietê? Estranho posso com tranquilidade dizer que ele é. Rodoviária do Tietê, estrutura que começou a ser construída em 1979 e por onde passam atualmente – diariamente – cerca de 100 mil pessoas. Gente que vem e vai. De canto pra canto. De capital pra capital. De capital pra interior. De bairro pra bairro. De sonhos para o incompreensível. Da realidade para a luta…

Central do Nordeste. Esse é o nome do “simples” prédio ao lado da rodoviária mais movimentada do Brasil. Parece curioso: central do Nordeste quase no centro do País. Ao menos, centro financeiro. – Caramba, tava só tirando um cochilo. Diz Ceará ao pisar de chinelos o primeiro dos degraus que leva da recepção do Central para a rua. Pago tu pra quê? Pra dormir? O arcada inferior parece bravo.

“Ceará… Ceará. Oh, Ceará”. Sumiu o cabra, é? Vou ai olhar também. O avantajado entra pela porta diagonal do Central e sobe pelas estreitas escadas. Suas dimensões corporais as tornam ainda mais espremidas. Não faziam 30 minutos que Ceará havia pisado à rua para falar com o patrão. “Tá aqui dentro, não!”. Se ele aparecer de novo não deixa mais esse caboclo usar o quarto. O senhor da arcada dentária inferior está bravo. Sem sucesso com o Ceará, às onze e quarenta da noite ele trata de ascender a churrasqueira na calçada – em frente a lanchonete, que fica ao lado do Central.

Aliás, o local que vende lanche, café preto, pão na chapa, pratos feitos – e, às onze e quarenta da noite, churrasco – é uma espécie de conjugado do Central. Na recepção do Central há uma placa com os dizeres: [No estabelecimento ao lado, temos café da manhã, almoço e jantar]. Na placa ao lado: [Se for mal atendido ou maltratado por algum dos nossos funcionários, procure o Sr. Antônio na lanchonete ao lado]. Suspeito que o Sr. Antônio deva ser o avantajado de arcada dentária inferior que procurava pelo Ceará – talvez seu novo funcionário.

Verdade é que Ceará sumiu por uma rua escura. Eu mesmo vi. Ele se meteu pelo beco no intervalo da primeira e a segunda “gritaria” pelo seu nome. Não me meti na confusão, claro. Mas Ceará sumiu pela escuridão de São Paulo. De camiseta, shorts e chinelo de dedo. Para onde foi? Será que volta? De onde veio?

O senhor de dentes inferiores coloca o primeiro pernil na grelha. 23h55. Hora de deitar…

Mas, antes de colocar o relógio par despertar às duas da manhã, pois tenho esperança de que Ceará volte e novos capítulos se desenhem nos corredores do Central, é preciso falar do bar do Marcinho. O bar do Marcinho fica ali perto do Central. Talvez cinco ou seis estabelecimentos para além do Central, no sentido oposto da Marginal do Tietê. [Salgado – 1,50. Ovo cozido – R$ 1,00]. {Uma Brahma, senhor!}. Eram quase 23h do sábado – antes da confusão do Ceará. Não poderia fazer hora no bar do Marcinho sem nada. Para observar, é preciso consumir. – Na mão, parceiro. Diz seu Marcinho, que, pelas minhas contas, deve estar na casa dos 60 anos. Ele é uma figura estranha. Cabelos meio longos, ralos e encaracolados. Um óculos estilo Wally. Digamos que ele parece o pai do Wally.

Ele não tinha queixo. Ele assoviava Adoniram. Parava apenas quando entrava alguém para olhar o resultado do jogo do bicho na sua parede. – Quase deu milhagem de zero, diz Marcinho ao taxista. Confesso, não entendi nada. Ali, no bar do Marcinho conversavam três homens. Dois mais senhores e um mais jovem. O mais jovem era de Campinas e disse que estava em São Paulo de passagem. Acabara de se especializar no que chamou de “arte de aplicar azulejos”. O papo entre os três seguia meio sem pé nem cabeça. Virou dos desafios na cidade grande para o Ronaldinho Gaúcho. Confesso, não entendi nada.

Por fim, um dos mais senhores resolveu ir embora. Despediu-se e ouviu do mais jovem: “Foi um privilégio conhecer o senhor. Será outro privilégio quando nos conhecermos de novo”. Essa eu achei bacana. Esbocei um sorriso irônico. Olhei para o Marcinho. Mas ele assoviava Adoniram. O menino de Campinas foi embora. O outro senhor também. E eu também. {Quanto é?}. – Seis reais campeão. {Obrigado}. – Até mais campeão.

Até mais quando penso eu.

Duas horas e um minuto o relógio de pulso – no chão do quarto – toca o alarme. Qual desculpa dou para mim mesmo para levantar da cama, na fria madrugada de São Paulo, para ir à lanchonete ao lado do Central? Ouço alguns gritos. São os ruídos da noite ou será que o Ceará está correndo pelos corredores do Central com o senhor da arcada dentária inferior atrás dele? Visto o blusão e deixo o quarto. Como cheira estranho o Central. Não posso dizer que era um cheiro ruim. Estranho. Apenas estranho.

{Uma água, por favor}. Sento na lanchonete. No canto, dois senhores jogam palitinhos. Eles disputam de verdade. Entra um menino. Moleque ainda. Digamos, 25 anos. Blusão verde, capuz na cabeça. – Oh, gordo: me vê um isqueiro, diz ele com voz malandra. Gordo é o atendente noturno da lanchonete do Central. Não é o avantajado de dentes inferiores. É outro já. O “patrão” do Ceará já sumiu. Não há mais churrasqueira na rua. E o Ceará? O gordo faz um movimento para ascender o cigarro do moleque, que reage como se fosse pegar o isqueiro. “Seu trombadinha. Querendo levar vantagem?!”. Grita o Gordo, sem ascender o cigarro do menino. Alguém no balcão ascende e o menino de vida livre vai embora. “Esse moleque é safado. Sempre tentando levar algum”, esbraveja o Gordo.

Bom, sem Ceará a história ficou sem graça. A barra também ficou um pouco mais pesada. Água por dois terços consumidos. Hora de voltar para o quarto. Relógio: pra despertar oito da matina. Acordo antes, claro. Às sete o olho arregala. Uma rápida higiene no banheiro um por um. Volto ao bar – agora para o café da manhã. Por lá aparece um senhor, de vida torta. Caminha de muletas, pois quebrou a perna em uma briga. – Sonhei com você. Que você andava sem ‘esses pau’ ai. Gritou um do balcão para o senhor de muletas. “Estou quase bom”, responde.

Ao fundo da lanchonete, um paraibano, crescido em São Paulo, já com seus sessenta e poucos anos, repete insistentemente: “De onde veio o menino? Do Belémmmm”. Com voz grave, ele repete a frase de tempo em tempo. Assim como repete a última palavra da frase das pessoas que estão ao seu lado. Lado. Eu tomo meu café preto com pão na chapa. Chapa.

O senhor de perna quebrada deixa o bar e exibe a parte inferior das muletas para mim. Na da direita, a frase: “Minha família. Minha vida”. – Sorte dele que tem muletas, canetinha e a chance de escreve essa frase. Talvez fosse essa a frase do Ceará. “Ceará… Ceará. Oh, Ceará”