Nascido em família católica, tenho duas frases (expressões) que marcaram minha infância: “ame ao próximo” e “você não deve adorar coca-cola. Adorar somente a Deus”. Definitivamente, eu adorava coca-cola. Não que deixasse de crer em Deus. Porém, desde então, passei apenas a gostar (muito) de coca-cola. Assim como fui tentar entender qual era o contexto de “amar ao próximo” – ao semelhante.

O tempo passou e hoje posso dizer que entendo (parcialmente) o “tal” contexto. Se o pratico sempre? Possivelmente, não. O ser humano, afinal, é feito de emoções – boas e ruins. Ele ama. Mas sem o ódio não existiria o amor, diria o outro. Assim como sem a guerra não existiria a paz. Pois bem, o mundo é uma máquina complexa. O ser humano, duas vezes mais difícil de ser decifrado. Resumindo, o ser humano ama. E (sim, soma, não contradição) também odeia… A “bondade plena”, se é que ela existe, reserva-se em uma pequena parcela dos homens.

Assim como vamos crescendo e descobrindo que o ser humano é marcado pelo antagonismo e pela dubiedade em seus sentimentos e suas atitudes, também questionamos algumas práticas aplicas em cima de conceitos, entre eles o do “amor ao próximo”. Aqui, abro o parêntese para desvincular a frase da igreja católica. Ela é uma expressão marco de quase todas as religiões. O conceito de respeito ao próximo está no altar das religiões. E ponto.

Porém, qual é o valor de um conceito quando na prática ele percorre por caminhos tortuosos. Que “conceito” é esse de respeito ao próximo que discrimina homossexuais em campanhas caríssimas de igrejas Brasil afora? Assim como fazem as bancadas ditas “conservadoras” no Congresso Nacional e no Senado. Que “conceito” é esse de amor ao próximo que não abre espaço para a discussão do uso da camisinha – enquanto muitas famílias enfrentam crises devido ao número cada vez maior de adolescentes grávidas? Que “conceito” é esse de amor ao próximo que não permite discutir o aborto, quando muitas mulheres e famílias sofrem com as consequências da clandestinidade?

Mas, afinal, o erro está no conceito? Obviamente, não. Ele parece estar nos homens que fazem o engenho do sistema religioso girar. Utilizando-se da arma da imoralidade e por trás da força da imagem das intuições religiosas, senhores ignoram as reais necessidades da sociedade e engolem um conceito virginalmente moral. Pregam o amor, quando praticam (incentivam) o ódio.

O mundo agradece aos belos conceitos. E clama por atitudes semelhantes.
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