>>> A presidente resolveu mexer num vespeiro em que os mais recentes governantes, FHC e Lula, nunca ousaram tocar. Mais do que isso, optaram por afagar. Agora, Dilma sabe que recuar é impossível. As vespas nunca mais serão mansas.  



Nas duas últimas décadas, desde o início dos anos 90, o Brasil passou por uma série de transformações. Com a implementação do Plano Real, na gestão de Itamar Franco, a abertura de novas relações internacionais sob a batuta de Fernando Henrique Cardoso, prática consolidada por Lula, o país cresceu e estabilizou-se economicamente. No pacote de medidas da gestão lulista, o Brasil aprofundou em temas sociais e na estabilidade de emprego e de renda para a tradicional e a nova classe média.

Heranças que caem sobre o colo de Dilma Rousseff – a sucessora. Enquanto pode comemorar o fato de pegar um país mais estruturado para governar, resultado principalmente das duas últimas gestões, de PSDB e PT, Dilma ainda há de queixar-se de um fator: nenhum dos dois presidentes (FHC e Lula) na “nova democracia” foi capaz de, se não aniquilar, ao menos amenizar a prática da troca de interesses dentro dos blocos governistas.
Fernando Henrique teve ao seu lado o PMDB, até a disputa presidencial de 2002, quando o nome tucano era José Serra. Com a vitória de Lula, o maior partido (em números) do país bandeou-se para o barco petista. Por lá ficou durante as duas gestões de Lula e agarrou-se na condição de vice na chapa de Dilma, em 2010.
 
Com a vitória da “afilhada” de Lula, por lá o PMDB poderia acomodar-se. Mas, como tem nas mãos um país economicamente e socialmente mais equilibrado, Dilma resolveu dividir parte de suas atenções para mudar o “tal” fator que pegou como maldita herança: o fisiologismo. Ela quer acabar com os três pilares que sustentam um consórcio governista: a oferta de ministérios, o despejo de verba para atender os deputados da base aliada em seus estados e a articulação da máquina federal para corresponder aos interesses em época de eleições municipais.
O primeiro pilar Dilma já conseguiu enfraquecer. Na composição dos ministérios, lá no início de 2011, deixou o PMDB com gostinho de “quero mais”. Houve um primeiro desentendimento, o governo sofreu para aprovar o salário mínimo, mas a presidente preferiu arriscar. Não recuou.
Da pasta do Ministério do Trabalho apeou Carlos Lupi, em dezembro, colocando outro pedetista no comando,  Carlos Roberto dos Santos, na condição de interino. O partido bateu o pé, pois queria logo um nome definitivo. Dilma rebateu o tamanco do outro lado e disse que nada mudaria até o início de 2012. E não mudou até quase o fim de março. Um trimestre se vai e agora um nome de maior consenso dentro do PDT começa a ser conduzido à pasta. Chama-se Brizola Neto.
Em julho de 2011, Dilma sacou da Pasta do Transporte o senador Alfredo Nascimento, do PR. Levou à cadeira outro integrante do mesmo partido, Paulo Passos. O nome escolhido por Dilma, e não por indicação do PR, irritou o partido aliado. Passos é algoz do presidente do PR, Alfredo Nascimento. Por duas vezes, o partido rompeu com o governo. Dilma deu de ombros e sustenta que o ministério segue com Passos.
A segunda pilastra que alimenta o fisiologismo nos últimos anos é caracterizada pelas verbas para as emendas dos deputados da base governista. Nas últimas duas últimas gestões, de FHC e Lula, o dinheiro dos cofres públicos deslizavam facilmente para os legisladores. Sob Dilma, a torneira foi levemente fechada. Gerou insatisfação e novamente a presidente virou as costas aos interesses da base.
Quanto ao quebra-cabeça para ajudar na articulação das eleições municipais, Dilma deixa, por exemplo, seu padrinho, Lula, falando sozinho. Quando Fernando Haddad, pré-candidato do PT em São Paulo, deixou o Ministério da Educação, queria o ex-mandatário que a pasta fosse às mãos do PMDB, para minar a candidatura do aliado federal em São Paulo. A presidente levar outro petê ao trono, Aloísio Mercadante. Também não atendeu com tanta rapidez às exigências do PDT sobre a pasta do Trabalho. O partido esboça coligação com o PSDB na capital paulista e até ensaia uma aproximação na esfera federal, visando 2014.
Alertada pelo ex-presidente Fernando Collor sobre os riscos de não dialogar com o Legislativo, Dilma não quer saber de papo. Ela é a presidente, eleita para executar; e os parlamentares são os deputados e senadores, eleitos para legislar e fiscalizar o executivo.
Prova de que Dilma quer mais é que cada um ocupe seu devido lugar foram os novos nomes que levou ao comando das bases governistas, tanto na Câmara Federal quanto no Senado. Entre os deputados, arrastou o experiente petista Arlindo Chinaglia ao posto de líder do governo. De personalidade pouco palpável, Chinaglia é daqueles que não gosta muito de diálogo fechado. Prefere decidir todas as questões de forma rápida e objetiva, em conversas envolvendo o maior número de pessoas possíveis.
Pelas bandas do Senado, Dilma optou por um nome que se declarava “independente” (nem governo, nem oposição). Porém, o novo líder, o senador do PMDB, Eduardo Braga, fala a mesma língua da presidente. Em entrevista ao O Globo, Braga diz que “o Brasil vem passando por uma transformação econômica e social, mas ainda não tinha feito o enfrentamento das antigas práticas políticas”.
Segundo Braga, Dilma “acha que chegou a hora de transformar como é feita a interlocução na classe política”. Assim como a presidente, o novo líder acredita que a opinião pública está “favorável” ao comportamento adotado por Dilma.
Falar que Dilma corre os mesmos riscos de Collor, como o mesmo chegou a sugerir, ainda é cedo para dizer. Mas ela decidiu mexer num vespeiro que, nem FHC e nem Lula, ousaram se aproximar (ou contrariar). Porém, como já abriu um pequeno buraco na casa das vespas,  o melhor mesmo é eliminá-la – ou enfraquecê-la ao máximo. Recuar agora já é tarde, pois as vespas nunca mais serão mansas e o “crédito” obtido junto à opinião pública iria pelos ares.