>>> Discreto e pouco enfático em sua fala, Haddad arrasta características nada interessantes para um ano de transição política em São Paulo. Terá que ser lapidado no sentido inverso do que foi Lula entre 1989 e 2002.



Em 2002, depois de três derrotas eleitorais consecutivas, o repaginado petista Lula subiu a rampa do Planalto, em Brasília. Por oito anos, ocupou a cadeira da presidência da República. Tempo administrativamente bem aproveitado  – inversamente proporcional ao precário projeto para o surgimento de uma nova liderança petista. A carta na manga para 2010, ano da sucessão, teve de vir de uma aposta pessoal de Lula.

A ex-pedetê Dilma Rousseff tornou-se o “nome” escolhido por Lula desde o momento em que substituiu José Dirceu à frente da Casa Civil – após o escândalo do mensalão. O pulso firme de Dilma junto aos ministros foi a peça-chave para Lula enxergar na “companheira” a opção mais viável entre todas que o PT não conseguiu formar em oito anos no poder.

Quando o nome de Dilma começou a circular pelo cenário como possível candidata à sucessão de Lula, logo em 2007, as pesquisas de intenção de voto mostravam uma subida consistente mês a mês. Assim que sua candidatura começou a ser empinada, em 2009, Dilma carimbava mais de 10% na intenção de votos. Em uma pesquisa feita pelo Datafolha, em março de 2009 – ano pré-eleitoral –, Dilma aparecia com 11% do eleitorado. Serra tinha 41%. Em março de 2010, a hoje presidenta da república alcançava números superiores aos 20%.

Assim como fez com Dilma em 2010, Lula resolveu apadrinhar e colocar sua capacidade como cabo-eleitoral novamente à prova. Levou garganta adentro do petismo paulistano o nome de Fernando Haddad. O candidato sem o 100% de aprovação da militância petista, navega hoje na limitada margem de 3% da intenção de votos, revelou pesquisa do Datafolha de 3 de março de 2012. Faltando sete meses para o pleito eleitoral, Haddad terá de nadar, literalmente, contra o tempo para sair da lanterna e ter condições de arrastar, ao menos, a disputa ao segundo turno.

Diferentemente de Dilma, que ocupou um ministério de “telhado de vidro”, mas em questões internas de poder, Haddad foi ministro por oito anos de uma pasta tradicionalmente problemática. À frente da Educação, teve conquistas, como a melhoria do acesso ao ensino superior e o investimento em escolas técnicas, por exemplo.

Porém, pouco convenceu na educação de base e ainda enfrentou crises no sistema de aplicação do ENEM.O saldo pode ser até mais positivo do que negativo, se for imparcialmente colocado na balança. Mas é certo que Haddad terá de responder, ao longo da campanha, pelos erros cometidos pelo MEC. Dilma teve que rebater crises éticas em 2010, como o caso da Erenice Guerra – situação (corrupção) que o eleitorado brasileiro já coloca como parte da realidade de todos os partidos. Haddad, por sua vez, responderá por falhas administrativas, mas difíceis, obviamente, de serem explicadas.

Outro ponto que distancia a realidade de Dilma e Haddad é o cargo que está em questão e a presença do cabo-eleitoral na campanha. Lula transferiu a faixa presidencial. Saiu do ombro de um presidente petista e foi ao ombro de outro presidente petista. Em São Paulo, o cargo em jogo é o de prefeito e, hoje, a faixa está com um neo-PSD – um ex-DEM. E, para complicar ainda mais, Gilberto Kassab é um parceiro político de um tucano, José Serra (pré-candidato em potencial do PSDB).

Bem diferente do que ocorreu em 2010, Lula – o padrinho de Dilma e agora de Haddad –, não tem a máquina pública nas mãos. Como teve em 2010. Até tentou conseguir, em uma aproximação falha (e sem sentido) com Kassab. Mais do que não ter a máquina nas mãos e não poder dar os louros de “PACs” e programas habitacionais para Haddad, Lula ainda não tem, hoje, condições físicas para se dedicar 100% ao evento eleitoral. Acometido com um câncer na laringe, Lula está recuperado da doença, mas ainda sofre com os efeitos do tratamento. Neste domingo mesmo, dia 4 de março, foi novamente internato, com febre leve e infecção pulmonar moderada.

O eleitorado de São Paulo, assim como o de qualquer estado, é bem mais homogêneo quando comparado ao plano nacional. O Brasil, país de dimensões continentais e de característica multicultural, possui um eleitorado fragmentado – de arrancar os cabelos do mais astuto marqueteiro político. Mais do que encontrar um público fiel ao que hoje é oposição em Brasília, Haddad desbravará uma cidade pouco simpática ao petismo. Com o apoio de Lula, Haddad sem dúvidas estaria mais armado. Mas, na atual conjuntura, com Lula na “banguela”, Haddad pode passar de “potencial astro do mundo lulístico” para um figurante até mesmo de partidos aliados.

Seria amadorismo apontar que Haddad seguirá sofrendo com apenas um dígito nas margens de voto. Crescerá, até por uma questão de conformismo da militância petista – que votará à revelia no “dito cujo”. Porém, assim como sua derrota está distante de ser uma certeza, uma possível vitória está pegando carona de bicicleta lá pelas bandas “acreanas”. 


Em tempo: Haddad também terá que responder sobre o “kit anti-homofobia”, lamentavelmente convertido pela bancada evangélica do Congresso e por parte da mídia no título de “kit gay”. Mais sobre este tema aqui!