Quando ouvimos/vemos no noticiário os famosos “panelaços” realizados pelos argentinos às portas da Casa Rosada, tenhamos a certeza: eles estão no ápice de suas revoltas. Entendem que ir às ruas é a única solução para conseguir barrar alguma atitude autoritária de seu governo – como o aumento de taxas de impostos ou a criação de leis que a população, em sua grande maioria politicamente educada, julga como contrárias ao interesse coletivo.

Em uma rápida conversa com a amiga e geógrafa Valéria Duarte, que passou os últimos 20 dias em Buenos Aires e Montevidéu (Uruguai), este repórter pode compreender um pouco mais sobre o povo argentino e o povo uruguaio.


Durante o tempo em que esteve na Argentina, Valéria acompanhou a internação da presidente Cristina Kirchner. Ela relata que foi incrível ver a comoção dos argentinos, que criaram outdoors e faixas em apoio à mandatária. No meio da internação de Cristina, o mesmo povo que apoia a presidente, se vê diante de uma situação desfavorável para o coletivo.


Eles estavam prontos para levantar bandeiras.

A sensatez que deveria caber a qualquer cidadão no mundo em separar pessoas, de governos, de políticas…

Foi estipulado um aumento de mais de 100% nas passagens dos metrôs, que são de responsabilidade do estado. Indignados, os administradores decretaram catraca livre até que o Congresso se reunisse para debater o aumento abusivo. “Serviço público não tem que dar lucro”, disse um dos responsáveis pela ação.

Quando Valéria deixou o país, o Congresso estava exatamente reunido em assembleia extraordinária para discutir o tema.

Ah! As catracas foram liberadas inclusive nos períodos de pico do dia.

Além da civilidade política do povo, Valéria ficou encantada com a receptividade e a educação de argentinos e uruguaios, além da estrutura turística. Em Buenos Aires, por exemplo, há uma impecável mobilidade urbana, devido às ruas largas e de mão única; e ônibus turísticos, com piso superior sem teto, em que você paga algo em torno de 35 reais e tem direito de circular por 24 horas no veículo, passando por todos os pontos turísticos da capital argentina. Você ainda pode descer e subir quantas vezes quiser, dentro do mesmo pacote adquirido.

Segundo Valéria, a rivalidade entre brasileiros e argentinos fica mesmo reservado ao futebol. Aliás, até no futebol, no fundo no fundo, há um respeito mútuo.

Ela conta também que na Argentina, os turistas são alertados para não serem enrolados pelos taxistas – situação comum em grandes metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo. Porém, o país dispõe de um transporte público estruturado, sendo uma ótima opção para locomoção.

A transparência dos taxistas pode ser vista em Montevidéu, no Uruguai. Valéria relatada que por lá, o taxímetro começa a girar no número 1, sendo que cada unidade rodada corresponde a uma ficha, que posteriormente é convertida em pesos uruguaios. Todos os taxistas mostram o valor no taxímetro e recorrem à tabela para deixar a “corrida” mais transparente ao passageiro. O trajeto mais longo feito por Valéria foi do “emocionante” Estádio Centenário até o Mercado Del Puerto, pagando 160 pesos uruguaios – 16 reais. Há ainda uma tabela fixa dos principais bairros da capital até o aeroporto.

Sobre a cultura dos uruguaios, Valéria conta que a diversão não está diretamente vinculada às compras. Além dos inúmeros parques públicos, a Praia do Prata banha toda a capital montevideana, com calçadão e ciclovia ao longo da orla. Culturalmente, no final das tardes, uruguaios (acompanhado de familiares, amigos – ou mesmo sozinhos), se dirigem com suas cadeiras e seu mate à orla. De lá, contemplam o oceano…  “Guardo na memória essa imagem linda e inesquecível”, diz Valéria.


No Uruguai, o presidente, José Mujica, não residente no Palácio Presidencial. O primeiro presidente de esquerda do país continua vivendo em sua casa. De lá, desloca-se todos os dias para o prédio do Executivo, localizado no centro da cidade. Ali, a vaga do seu carro fica em local público e aberto.

Enfim, um pouquinho sobre a Argentina (e os argentinos) e o Uruguai (e os uruguaios) em um olhar bem brasileiro. Uma viagem que vale a pena – inclusive, por um preço bem razoável.