>>> Os principais veículos de comunicação do país estampam manchetes diárias sobre atos de corrupção e cobram moralidade da classe política. E qual(is) seria(m) o(s) motivo(s) para a omissão desses mesmos jornais, revistas e emissoras de televisão diante da obra de Amaury Ribeiro Jr.?



“Nós tiramos a gravata do Collor e colocamos um pouco de suor no rosto dele…”. Recentemente, em entrevista à Globo News, em que falou de sua biografia, o ex-diretor da Globo, Boni, confirmou um fato que há anos todos encaravam como verdade. Mais do que manipular o último debate presidencial de 1989, a emissora carioca montou esteticamente aquele embate final entre Lula e Collor. “Estava uma disputa desigual, pois o Lula era o povo e o Collor, autoridade”, justifica Boni, mostrando que a única preocupação da Globo era equilibrar o jogo. Pasmem. “Colocamos as pastas (na frente do Collor), com supostas denúncias contra o Lula, mas as pastas estavam vazias… Com folhas em branco”, diverte-se o diretor.

Em 9 de dezembro, última sexta-feira, chegou às livrarias a primeira leva do livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.. A obra ganhou as redes sociais e os veículos de imprensa do que podemos chamar de segundo escalão da mídia nacional, como Carta Capital e o Terra Magazine – revista online do Portal Terra. Com 340 páginas, sendo 112 de documentos de paraísos fiscais e de CPIs contra o governo de Fernando Henrique Cardoso, a obra aborda as suspeitas de lavagem de dinheiro que marcaram as privatizações ao longo dos oito anos do governo tucano, como a privatização do setor de telefonia.

Personagens principais do livro: o ex-diretor do Banco Central, Ricardo Sérgio de Oliveira, e o ex-governador de São Paulo e à época das denúncias Ministro de Planejamento de FHC, José Serra. Enquanto fazia reportagens sobre o narcotráfico e o assassinato de adolescentes em Brasília, o jornalista Amauri leva um tiro. Refugia-se em Minas Gerais, onde inicia um trabalho investigativo sobre a espionagem promovida por Serra contra o então governador do Estado, Aécio Neves. Ambos do PSDB, Serra tinha o objetivo de minar os objetivos de Aécio em ser candidato em 2010. A partir daí transcorre a obra, que vai esmiuçar o ninho tucano durante os oito anos no poder em Brasília…

Como bem colocou o jornalista Bob Fernandes, a grande mídia resolveu se calar diante da obra de Amauri e esboça dizer que adota essa postura pelo fato de “faltar credibilidade” ao jornalista. Amauri foi indiciado pela Polícia Federal por ter investigado Serra e a família durante a campanha eleitoral de 2010.

A mesma mídia que agora exige credibilidade de Amauri e, por isso, prefere ocultar sua obra, não teve o mesmo rigor com denunciantes como Roberto Jefferson, o “protagonista” que revelou o Mensalão. Tão pouco cobrou mais transparência do policial João Dias, que denunciou um esquema de corrupção no Ministério dos Esportes, resultando na queda do ministro Orlando Silva. Dias alegou ter um vídeo em que provava ter entregado dinheiro ao ministro no estacionamento do Ministério. Até hoje não se tem provas do vídeo…

Na onda dos pesos e medidas, a grande mídia sabe bem como equilibrar a balança. Como destaca o ex-professor de Ciências Políticas e Comunicação da UnB, Venício Artur de Lima, “a moralidade da mídia é seletiva. Revela quando interessa e omite quando não interessa à posição político-partidária que assume. Isso é claro como a luz do dia”, disse em entrevista à Terra Magazine.

Esgotado, o livro terá mais edições desembarcando nas livraria na próxima segunda-feira, dia 20. Em paralelo, o PSDB diz que vai estudar se cabe alguma “ação judicial” contra o jornalista, mas a decisão dependerá de Serra. Talvez a mídia resolva cobrir que Serra está movendo uma ação contra “um livro que abordou supostos esquemas de corrupção nos oito anos de governo tucano”. Sem entrar em muitos detalhes da obra, claro!