>>> Obrigação com o que é tradicional faz o Festival Nacional de Teatro de Pinda resistir ao tempo… Porém, a perda da identidade e as graves falhas na divulgação da edição de 2011 levantam uma importante questão: Qual o risco da cidade “perder” seu principal evento cultural?
Para começar esse bate-papo, pediremos licença ao cantor e compositor Milton Nascimento. Na canção “Nos bailes da vida”, o artista conta a história dos músicos, que enfrentaram, em “troca de pão”, grandes distâncias e estradas de terra “na boleia de um caminhão”. E tudo tinha um objetivo maior do que ganhar dinheiro ou fazer sucesso: o rumo era cantar para “encontrar o caminho que vai dar no sol”.
Claro, os tempos são outros e os movimentos artísticos, assim como qualquer segmento da sociedade atual – mesmo tendo ele o papel de estar à frente de seu tempo –, precisa de dinheiro para se sustentar e acontecer. Porém, pontos essenciais não podem ser perdidos. Ainda aproveitando a mesma composição, nela Milton diz que “todo artista tem de ir aonde o povo está”… Resumindo, os movimentos culturais só se tornam sólidos se houver envolvimento do povo. Cabe ao Estado, apenas promover e dar suporte para que essas manifestações aconteçam, sejam elas de música, dança, teatro, artesato, entre outras… Sintetizando ainda mais: na cultura, o Estado tem que ser coadjuvante!
Ao chegar em sua edição de número 34, o Festival Nacional de Teatro de Pindamonhangaba, o Feste, se depara com uma triste realidade. Não se reconhece em sua tradição e importância; não se traduz na comunidade local; e, muito mais grave, a sociedade não se enxerga como parte desse importante movimento cultural, que, ao longo de sua história foi diminuído a um grande evento e, hoje, é apenas mais um acontecimento no calendário municipal. Em 2010, com o objetivo de se reestruturar o festival, não foi realizado o Feste. Silêncio! Ninguém lamentou um ano sem festival. Preocupante!
Aqui, cabe uma pergunta – quem quis reestruturar o Feste: o Estado ou o povo?
Neste ano, o festival voltou. Essencialmente o mesmo, teve sua programação remodelada e fragmentada ao longo de um mês – além de espetáculos levados aos bairros (importante ação). Silêncio novamente! Ninguém comemorou o retorno do festival. Preocupante 2! Começou no dia 5 de outubro, mas, a divulgação só começará a partir do dia 15 de outubro. Faz sentido? Apenas na segunda quinzena do mês, com o festival pela metade, chegarão camisetas e cartazes de divulgação. Repetindo: faz sentido?
Os resultados nos quatro primeiros dias de Feste foram o baixo público, tanto nos espetáculos adultos na Cootepi, como nas apresentações de rua. Este repórter esteve na apresentação da peça Pai Ubu, no bairro Mantiqueira. A 500 metros da escola onde aconteceria o espetáculo, uma moradora disse: “Nem sabia que ia ter teatro aqui. Quando tem eles avisam!”. Para atrair público, profissionais da Cootepi entraram em uma van e saíram gritando e buzinando pelas ruas. Isso, minutos antes de começar a apresentação. O esforço de uma parcela que, de fato, faz suar a camisa para ver algo acontecer de positivo pela arte.
O Estado “adotou” o festival, mas hoje o promove apenas como mais um evento dentro de seu calendário. Imagine um festival dessa importância em uma cidade como São Luiz do Paraitinga? As ruas estariam respirando teatro durante todo o mês, com caravanas anunciando as peças, bandas, artistas batendo de porta em porta… Enfim, que movimento cultural é esse que não faz barulho? Não incomoda – ou ao menos envolve – a sociedade? Ops, esquecemos que há muito deixou de ser um movimento e foi resumido a evento…
É importante ressaltar que, diferentemente de um movimento cultural, enraizado e traduzido em seu povo, um evento para acabar basta que uma parcela de cinco ou seis diga: “não faz mais sentido realizar isso: não tem público!”… Se não tem público, não dá voto… Enfim, deixaram o Estado conduzir: ele fará ao seu modo!
Hora de acordar pela cultura:

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