Não é de hoje que a presidenta Dilma Rousseff tem buscado formas de se distanciar da imagem do ex-presidente Lula. Ela nunca negará o fato de que sua vitória em 2010 se deve, digamos, 95% – jogando baixo – ao prestígio de Lula. Porém, com foco em fortalecer sua imagem, entre outros motivos para disputar a reeleição em 2014, Dilma precisa cravar sua identidade. E vem conseguindo.

Na posse e nos discursos (poucos) que aconteceram nos meses seguintes ao início do seu mandato, Dilma sempre fez menção a Lula. Com frequência usou frases como: “No governo do presidente Lula”, “Nos últimos oito anos…”, “Com o presidente Lula, o Brasil…”. Passados alguns meses, fim do primeiro semestre, crise nos ministérios, a presidenta começou a vestir sua nova personagem. Mostrou postura assertiva na condução das denúncias. Bem diferente do antecessor, não “rodou atrás do rabo”.
“Têm suspeitas em envolvimento? Saia do cargo e nos deixe em paz”… Essa é a política adotada por Dilma em temas que envolvem denúncias de corrupção.
Ninguém pode ser considerado culpado até que se prove o contrário. Entretanto, o governo não pode ver sua agenda parada no congresso por “birras” políticas. Por isso, o afastamento sem firulas dos ministros suspeitos de envolvimento em esquemas fraudulentos.
Falando na queda de ministros, um dos que foi jogado para fora do planalto foi Nelson Jobim. Ministro de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, Jobim foi mantido na pasta no início do ano por uma indicação de Lula. À Dilma, o ex-presidente reforçou a capacidade de Jobim na direção da Defesa: deu a ele grande parte dos créditos por amenizar a crise aérea de 2005.
Dilma conhecia os feitos de Jobim – afinal, trabalharam juntos no governo Lula –, mas nunca foi sua prioridade segurá-lo no cargo. Tanto não foi que bastaram duas entrevistas bombásticas de Jobim, ao portal UOL e à revista Piauí, para que Dilma desse “carga” no ministro.
Outro ponto que revelou o distanciamento estratégico de Dilma da imagem de Lula foi sua aproximação com a oposição. Mais especificamente com um dos principais desafetos políticos de Lula: FHC. Ao tucano, Dilma enviou uma carta aberta nos seus 80 anos e, além de felicitá-lo pela data, deu a Fernando Henrique os créditos por colocar a economia brasileira nos eixos. Por oito anos, Lula levantou a bandeira de que precisou chegar ao poder um homem do povo para que o Brasil tivesse uma economia forte.
Também houve troca de elogios entre Dilma e FHC durante evento realizado em São Paulo, em agosto, na assinatura do governo federal com governos estaduais no pacto de combate à miséria. De Fernando Henrique, Dilma recebeu apoio durante a “faxina” nos ministérios. Para alguns, FHC segurou a onda da oposição, que queria fazer ainda mais alarde em cima dos fatos.
O último episódio que marca a independência de Dilma aconteceu nesta sexta-feira, dia 30 de setembro, durante discurso para 400 empresários, em São Paulo. Em detalhes linguísticos, a presidenta deixa claro que “o seu governo é o seu governo”.
Após dizer que, diante da crise, o planalto está abrindo espaço para o Banco Central reduzir os juros, Dilma disparou:
“Quanto mais a deflação ameaçar a economia internacional, quanto mais a situação financeira ficar grave, desta vez nós vamos aproveitar”
“O Brasil não pode, desta vez, errar na avaliação do que vai acontecer aqui como repercussão do que está acontecendo lá fora. Não é admissível que, se de fato se configure uma recessão e um processo deflacionário no resto do mundo, nós aqui estejamos sem levar isso em conta.”
Em duas frases próximas, Dilma fala “desta vez nós vamos aproveitar” e “o Brasil não pode desta vez errar na avaliação…”
Dizer que Dilma rompeu com Lula. Exagero e pura teoria da conspiração. Porém, seu distanciamento do ex-presidente é fundamental para que seu governo ganhe suas próprias características. E, diga-se de passagem, deverá ser marcado pela discrição e pelo cumprimento de metas. Pelo menos esse é o perfil que Dilma demonstra ter até aqui.
Mais absurdo ainda afirmar que a presidenta está mudando de lado, ao se aproximar de FHC. Como chefe de estado, Dilma fez o que muitos duvidavam: colocou o PT no bolso (quando se fala em administração pública no dia a dia do planalto) e busca um equilíbrio lógico e sólido entre “afagar” seus partidos da base e se aproximar de lideranças da oposição – neste caso, afagando egos.
Apesar de algumas batalhas perdidas até aqui, como a saída do PR da base (retornou posteriormente) e a convocação de ministros para sabatinas no Senado, Dilma está vencendo a “guerra”. Para fechar seu bom momento, voltou a crescer em popularidade e boa avaliação de seu governo, segundo pesquisa do Ibope.

Imagem: AE