Uma vida traçada em 23 anos…

Deles, “míseros” seis como eleitor. Às urnas, em quatro momentos distintos da democracia brasileira.

Nas eleições municipais de 2004 e 2008 e nas nacionais, de 2006 e 2008.

Em todas elas, enquanto cargos maiores, de prefeito e presidente, carimbei em nomes vitoriosos.

Poderia ser motivo de orgulho. Ora foi. Ora não…

Mas, enfim, votos de convicção e com opiniões claras.

Hoje, um dia após ser um em 55 milhões de brasileiros que levaram Dilma Rousseff a presidência da república, os sentimentos se misturam.

Neste domingo, após às 20h07, quando foi oficializada a vitória da primeira mulher presidente do Brasil, despi-me da “fantasia” de eleitor – que sustentei por quatro meses – e deixei transparecer a cara do cidadão brasileiro. Sai de cena a euforia e as questões ideológicas, e ganha espaço a serenidade.

Afinal, a partir deste momento, existe algo maior do que tudo isso. Existe um Brasil de 190 milhões de brasileiros.

Porém, quero desabafar também… Afinal o sentimento de serenidade que busquei em menos de 12 horas, estão se confundindo com o de tristeza.

Posso ser vitorioso no meu voto, mas, acreditem, o coração pulsa o clima de derrota.

Derrota ao ouvir, pessoalmente, frases como: “Está feita à vontade do povo burro”. Ao ler no twitter: “Pobre que votou na Dilma, se bater na minha porta não dou comida”.

No mais salutar da minha arrogância, quero isolar as duas afirmativas acima ao marasmo. Mas no fundo, o aperto é tão grande que a emoção sobrescreve a razão.

Queria sorrir com mais um voto vencedor. Mas não posso…

Afinal, nunca bati na porta de nenhum serrista “acusando-o” de elitista e inteligente por votar no Serra. Pregando que seja um burro e, assim como eu – o burro que vos fala –, vote na Dilma.

Continuarei com as minhas convicções – as quais compartilho com pessoas que, com argumentos favoráveis ou contrários, topem estabelecer um diálogo sobre Brasil.

Um Brasil que está acima da mão sem um dedo, do preconceito com um “filho” do nordeste e metalúrgico ter sentado na cadeira dos letrados, da desqualificação do voto do pobre, do desrespeito entre classes, da hipocrisia dos discursos e da frieza nas palavras de quem ecoa os pensamentos das grandes organizações.

Queria ter a soberba suficiente para extravasar meu sentimento de vitória. Mas, o desrespeito é como um gol contra aos 49 minutos do segundo tempo – mesmo com a partida vencida.

Deixo o campo de cabeça erguida, mas com a triste convicção que os ataques morais continuam acima das argumentações construtivas…