Em 2002, o tucano José Serra era o candidato da situação. A continuidade do ‘bimandato’ de Fernando Henrique Cardoso. No entanto, a vontade do país era por mudança.

Lá atrás, representada pelo insistente ex-líder sindical: Lula.

Oito anos depois, novamente Serra – que por erronia do PSDB não foi ao pleito presidencial em 2006 – volta ao cenário eleitoral – agora como o candidato da oposição. Da mudança. Quando o eleitorado clama pela continuidade.

Ouve-se falar que o tucanato errou em sua estratégia de campanha – e nas três oportunidades (também em 2006, com Geraldo Alckmin). Havia como acertar?

Talvez, em 2006… O Partido dos Trabalhadores saia de uma intensa crise moral – fomentada pelo caso do ‘Mensalão’ um no ano anterior. A oposição tinha argumentos nas mãos para mostrar que, “tudo bem, Lula é Lula. Mas ele está amarrado em um sistema corrupto”.

Porém, na briga interna de egos, o PSDB errou no toque inicial da bola, ao preterir Serra.

Alckmin: o candidato errado; na hora mais certa…

Agora, quatro anos depois do pleito que marcou a reeleição de Lula, o tucanato partiu novamente pelo caminho torto. O brasileiro quer continuidade. Aqui cabe um parêntese: quando se fala “o brasileiro quer continuidade”, não é apontar um a um; mas com base em 77% de aprovação do atual governo. Fato!

Voltando; como pode ser capaz de dar continuidade ao atual projeto um candidato tão atrelado ao passado? Ex-ministro de FHC, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, ex-candidato à presidência.

A imagem de Serra não está ligada à continuidade. Seu discurso sempre foi outro. Sempre foi oposicionista.

Aos 49 do segundo tempo, o ninho tucano tenta levar à TV imagens de Serra abraçado com Lula e frases de efeito como: “Serra e Lula, dois homens de história, dois líderes experientes”; e até mesmo uma biografia enaltecendo o atual presidente: “Antes de chegar à Presidência, Lula foi presidente de sindicato, ganhando eleição, foi presidente de partido dele, ganhando eleição, ganhou eleição para deputado, disputou uma eleição para governador e três para presidente, antes de chegar lá. Tu pode [sic] gostar ou não gostar, mas experiência ele já tinha quando foi eleito. E ela (Dilma Rousseff)?”

Quem perde com isso: o PT, Lula, Dilma?

Não, apenas Serra.

Do que adianta enaltecer Lula e atacar a candidata do próprio. Então, se o Lula é tudo isso que até a oposição agora diz ser, então a candidata dele – que todos sabem, é a Dilma – é o nome certo?!

A propagando pode até embaralhar a cabeça de alguns – mas sempre o efeito será contrário a Serra.

O que estaria pensando agora o principal eleitorado de Serra: a classe alta?

O discurso oposicionista esfacelou-se no ar. Não existem argumentos…

A situação já tem seu palanque montado. Dilma está consolidada como a candidata de Lula.

Bem diferente de 2008, quando era uma postulante ao posto. Naquele ano, Dilma tinha de 2 a 3 por centro nas sondagens. Foi subindo, passando ao patamar dos 10%, beliscou os 20%, superou os 30%, virou sobre Serra e, agora, lidera com folga – na reta final.

O editorial da Folha deste sábado, 21, trata exatamente do assunto. Com o título “Avesso do Avesso”, encerra com uma frase sublime: “Numa rudimentar tentativa de passa-moleque político, Serra desrespeitou não apenas o papel, exitoso ou não, que teria a representar na disputa presidencial. Desrespeitou os eleitores, tanto lulistas quanto serristas”.

De fato, desrespeitou o papel de oposição e quer virar situação em um puro jogo político. Claro, tudo é política. Porém, cada um no seu papel – e com o mínimo de honradez. Desrespeitou os 30% – segundo último levantamento Datafolha – que ainda o apóiam na corrida presidencial como o candidato do “Brasil pode mais”.

O pior: “desrespeitou sua própria biografia – agora sem identidade!”

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