“Meus herois!”

A frase acima é uma das marcas do horário nobre da televisão brasileira nos três primeiros meses dos últimos dez anos.

Desde que foi criado – ou melhor, importado para o país -, o Big Brother Brasil se firmou como um dos produtos mais rentáveis da Rede Globo – mesmo ficando no ar por apenas três meses durante todo um ano. Tradicional, de janeiro a março.

A “nave” do BBB, segundo o jornalista Pedro Bial, que já cobriu fatos marcantes da história, como a Guerra do Golfo e a Queda do Muro de Berlim, está sempre ocupada por herois. Uma pergunta, ao hoje apresentador: herois de quem?

Caro, Bial! Qual o parâmetro utilizado por você para definir um heroi?

Nada contra cada um dos 12 ou 14 seres humanos – diga-se, comuns – ocupantes da “casa mais vigiada do Brasil” anualmente. São pessoas com histórias peculiares. Algumas tocantes, outras pré-montadas, sofridas, agitadas. Porém, histórias que poderiam ser “contadas” por mais de 150 milhões de brasileiros.

Muitos desses 150 milhões – melhor, a maioria – constroem diariamente suas histórias de forma anônima. Acordam cedo, enfrentam fila, pegam ônibus lotados, enfrentam enchentes, cumprem oito horas diárias de trabalho, aguardam ansiosamente pelo quinto dia útil do mês seguinte para pagar contas e fazer novas, sofrem com dividas, entre outros contra-tempos.

Enfim, vivem vidas de herois da vida real. Isso, diariamente.

Uma empregada doméstica, tomando como base um salário de 500 reais, precisaria trabalhar 250 anos para ganhar 1.500.000,00 milhões de reais.

Um rapaz de 23 anos, que em 2007 roubou três coxas de frango que seriam jogas no lixo em um restaurante da Infraero, em São Paulo, foi para a cadeia. Ficou preso em uma cela 4 x 4 metros, com outros 6 ou 7 presos – se não mais -, teve 30 minutos de sol diariamente, comeu no “bandeijão”, e tal, e tal, e tal…

Os herois BBB’s, em busca de um prêmio de mais de 1 milhão, ficam presos por três meses em uma casa. Sabem que ficarão nela no máximo três meses – e os querem cumprir. Afinal, além do prêmio, ganham “estalecas” – dinheiro próprio – para adquirirem comida, têm piscina e academia de ginástica à disposição. Sofrem? Opa; se sofrem. Não podem ficar pelados, são vigiados 24 horas, enfrentam provas exaustivas, como ficar pressionando o botão vermelho por várias horas. Objetivo? Ganhar a liderança da semana e um apartamento avaliado em 250 mil reais no Rio de Janeiro. Pobres, herois!

Esses herois enfretam crises psicológicas, convivem com pessoas falsas, a pressão é diária…

Assim como a fama que conquistam, a vida de herois e heroínas também é meteórica. Porém, tempo suficiente para jogar na cara da sociedade a construção de modelos que pouco agregam. Muito pelo contrário, pregam em rede nacional conceitos como “doar sangue não é bom” e apenas os “homossexuais contraem o vírus da aids”.

Enfim, cada um tem o heroi que bem entender. O Bial, no caso, tem vários; remodelados anualmente…